| O Papel da Europa na Crise atual - Por D. Manuel Clemente, Bispo do Porto |
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O papel da
Europa na crise...
O tema pede tratamento imediato,
na crise financeira, económica e social que assola gravemente alguns países
europeus e acaba por afetar o continente inteiro. Aparece também como um
momento decisivo para a construção comunitária começada no pós-segunda guerra
mundial e a que Portugal aderiu nos anos 80. Sem subterfúgio nem alheamento
possível, ou as instituições comunitárias ultrapassam positivamente esta crise,
ou ela torna-se num fracasso geral para o desígnio dos "pais
fundadores" (Schuman, Adenauer, De Gasperi, Monnet...). "Crise"
também significa "juízo", e ninguém quererá que seja negativo, pondo
em causa uma das realizações mais conseguidas e
Porque é disto mesmo que se
trata. Este pequeno continente, quase península ocidental da grande Ásia, tanto
foi decisivo para a aproximação mundial dos povos, como foi causa dos maiores
confrontos gerais das nações. Foi daqui - com especial protagonismo dos
portugueses, os mais ocidentais do Ocidente - que partiram no século XV as
navegações que ligaram continentes e ilhas num destino só: para bem, para mal,
para bem há de ser. Mas foi aqui também que começaram as duas guerras que se
tornaram "mundiais" pelos piores motivos e com as mais trágicas consequências.
Disse
"internacionalmente", não "supranacionalmente". Um dos
desvios graves de alguma globalização contemporânea consistiu em menosprezar a
realidade inquestionável de povos que há muito o são e de corpos intermédios
que qualquer sociabilidade não dispensa, porque nestes principalmente convive,
subsiste e avança, com o necessário envolvimento humano. Ignorar esta
A Europa constrói-se no que
realmente é e não apesar de si mesma. Vale a pena lembrar que, como
"continente" e no atual recorte geográfico, é sobretudo uma
construção "cultural", posterior ao Império Romano do Ocidente,
simbolicamente terminado em 473, com a deposição do seu último
O Império Romano fora um mundo de
cidades, prevalentemente Roma, que alargara o seu domínio século após século,
reduzindo antigos reinos à sua dependência e serviço. E o génio romano
revelara-se principalmente no modo como soubera organizar em função de si, sob
um governo unificado e uma lei geral, a vida de tantos povos de diferentes
graus de cultura, de gregos a bárbaros. Assim foi enquanto pôde, enquanto a
organização serviu um intuito culto e convincente, redobrando a força própria
com o interesse também dos outros. Não assim depois do século III, ainda menos
nos séculos IV e V, quando o Império já mal se garantia a Ocidente com a
incorporação de bárbaros romanizados. Ficou apenas o interesse alheio pelo que sobrasse,
sem acrescentamento possível. Na própria Roma, que poderia juntar um milhão de
pessoas no século I, persistiram apenas uns cinco ou seis escassos milhares no
final do século VI. O resto procurava em pequenos núcleos rurais ou ruralizados
a subsistência imediata e a segurança de algum guerreiro que a prestasse, a
troco de serviços. A pouco e pouco, criou-se uma "cultura" europeia, qual conjunto de pressupostos e ideais essencialmente idênticos, que ainda hoje - mesmo com a secularização que essa cultura afinal já prometia, na esteira da distinção que Cristo fizera entre Deus e César - nos faz sentir "em casa" de Atenas a Moscovo, ou de Londres a Lisboa. Ou no mesmo bairro, nas casas de cada um e sem muros demasiado altos. Valores comuns partilhados por povos distintos, esta é a base fundamental duma Europa que não nos esqueça e onde o todo conviva com as partes. A presente crise deflagrou pelas finanças, mas não se resolve sem a economia e esta liga-se necessariamente à política, ou seja, à vontade democrática dos povos que constituem a Europa. Creio que, muito em concreto, podemos contar com dois fatores positivos e relativamente novos: primeiro, a grande interdependência dos mercados, que não permite a ninguém sustentar-se só por si, mesmo tratando-se de economias mais fortes; segundo, a existência de uma autêntica geração "europeia", não só pelas migrações continentais, mas também pelos percursos escolares e plurilinguísticos. É sobre bases assim que a Europa avançará, bem como por uma comunicação social e mediática que dê a conhecer em cada país da União e da Europa o que de positivo vai acontecendo nos outros, para nos olharmos com mais realismo e esperança. Sem tais suportes, dificilmente poderiam os políticos "europeus" ir muito longe na legislação ou no governo; como realmente precisamos de ir, respeitando-nos como nações, que não subsistem umas sem as outras. A isto se chama conjugar subsidiariedade com solidariedade, práticas e valores que só reciprocamente se realizam. Manuel Clemente, Bispo do Porto e Vice-Presidente da CEP. Aos 29.12.2012: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2968313&page=2
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