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A Palavra de Deus na vida e na Misão da Igreja - Lineamenta para a XII Assembleia Geral do Sinodo Imprimir EMail

A Palavra de Deus na vida

e na missão da Igreja

Lienamenta da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos


PREFÁCIO

“A palavra de Deus é viva, é realizadora, mais afiada do que toda a espada de dois gumes: ela penetra até onde se dividem a vida do corpo e a do espírito, as articulações e as medulas e é capaz de distinguir as intenções e os pensamentos do coração” (Heb 4,12).

Toda a história da salvação é uma prova de como a Palavra de Deus é viva. Quem toma a iniciativa de se comunicar é Deus, fonte da vida (cf. Lc 20,38). A sua Palavra dirige-se ao homem, obra das suas mãos (cf. Job 10,3), criado precisamente para ser capaz de Lhe responder, entrando em comunicação com o seu Criador. Portanto a Palavra de Deus acompanha o homem desde a criação até ao fim da sua peregrinação sobre a terra. Manifestou-se de diversos modos, atingindo o ápice no mistério da Encarnação, quando, por obra do Espírito Santo, o Verbo, Deus junto de Deus, se fez carne (cf. Jo 1,1.14). Jesus Cristo, morto e ressuscitado, é “o Vivente” (Ap 1,18), Aquele que tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).

A Palavra de Deus é também afiada. Ilumina a vida do homem, apontando-lhe o caminho a seguir, sobretudo através do Decálogo (cf. Ex 20,1-21), que Jesus sintetizou no mandamento do amor para com Deus e para com o próximo (cf. Mt 22,37-40). As Bem-aventuranças (cf. Lc 6,20-26) são, por sua vez, o ideal da vida cristã, vivida na escuta da Palavra de Deus que perscruta os sentimentos dos corações, inclinando-os para o bem e purificando-os do que é pecaminoso. Comunicando-Se ao homem pecador, que porém é chamado à santidade, Deus exorta-o a mudar o mau comportamento: “Convertei-vos dos vossos maus caminhos e guardai os meus mandamentos e preceitos, no cumprimento de toda a Lei que prescrevi aos vossos pais e vos comuniquei por meio dos meus servos, os profetas” (2Reis 17,13). Também o Senhor Jesus dirige, no Evangelho, o convite: “Arrependei-vos, pois está perto o Reino dos Céus” (Mt 3,2). Pela graça do Espírito Santo, a Palavra de Deus toca o coração do pecador arrependido e leva-o à comunhão com Deus na sua Igreja. A conversão de um pecador é motivo de grande alegria no céu (cf. Lc 15,7). No nome do Senhor ressuscitado, a Igreja continua a missão de pregar “a todas as nações o arrependimento e o perdão dos pecados” (Lc 24,47). Ela mesma, dócil à Palavra de Deus, põe-se no caminho de humildade e de conversão, para ser cada vez mais fiel a Jesus Cristo, seu Esposo e Senhor, e para anunciar, com mais força e autenticidade, a sua Boa Nova.

A Palavra de Deus é também eficaz. Comprovam-no as histórias pessoais dos patriarcas e dos profetas, bem como do povo eleito da Antiga e da Nova Aliança. De forma de todo excepcional, testemunha-o Jesus Cristo, Palavra de Deus que, encarnando, “veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14), e que continua a anunciar o reino de Deus e a curar os enfermos (cf. Lc 9,2) através da sua Igreja. Esta realiza tal obra de salvação por meio da Palavra e dos Sacramentos, de modo especial a Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja, onde, pela graça do Espírito Santo, as palavras da consagração se tornam eficazes, transformando o pão no Corpo e o vinho no Sangue do Senhor Jesus (cf. Mt 26,26-28; Mc 14,22-23; Lc 22,19-20). A Palavra de Deus é, portanto, fonte da comunhão entre o homem e Deus e entre os homens que o Senhor ama.

A estreita relação entre Eucaristia e Palavra de Deus também contribuiu para a escolha do tema da próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, reforçando o desejo, aliás antigo, de levar a reflexão sinodal a concentrar-se sobre a Palavra de Deus. Daí que, após o Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia fonte e cume da vida e da missão da Igreja, realizado de 2 a 23 de Outubro de 2005, parecesse lógico concentrar-se sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, aprofundando ulteriormente o significado da única mesa do Pão e da Palavra. O tema reflecte o desejo prioritário das Igrejas particulares, que os Bispos, seus Pastores, manifestaram. Sim, porque a escolha do tema da próxima reunião sinodal foi feita de forma colegial. De acordo com uma praxe já consagrada, o Santo Padre Bento XVI tinha encarregado a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos de consultar para o efeito todo o episcopado da Igreja Católica. Das respostas enviadas pelas Igrejas Orientais Católicas sui iuris, pelas Conferências Episcopais, pelos Dicastérios da Cúria Romana e pela União dos Superiores Gerais resultou ser a Palavra de Deus o tema preferido com diversas acentuações e notável variedade de aspectos. O abundante material foi analisado pelo XI Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos que, de certa forma, representa a inteira assembleia. Aliás, 12 dos seus membros foram escolhidos pelos colegas durante a XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Em conformidade com o previsto no Ordo Synodi Episcoporum, outros 3 membros do Conselho foram nomeados por Sua Santidade o Papa Bento XVI. O resultado de um fecundo debate feito no Conselho Ordinário foi sintetizado numa terna de temas que o Exc.mo Mons. Secretário Geral submeteu à decisão do Sumo Pontífice.

O tema escolhido pelo Santo Padre, Presidente do Sínodo dos Bispos, foi tornado público a 6 de Outubro de 2006. A seguir, o Conselho Ordinário da Secretaria Geral empenhou-se na preparação dos Lineamenta, documento que tem por finalidade apresentar brevemente o estado da questão sobre o importante tema da Palavra de Deus, indicar aspectos positivos na vida e na missão da Igreja, sem omitir certos aspectos problemáticos ou que, pelo menos, carecem de um aprofundamento para bem da Igreja e da sua vida no mundo. Nesse sentido, os Lineamenta reportaram-se abundantemente à Constituição Dogmática sobre a divina revelação, a Dei Verbum, e de modo especial seguem a linha escolhida pelos Padres conciliares, a de se colocar em atitude de religiosa escuta da Palavra de Deus, para depois poder proclamá-la desassombradamente (cf. DV 1). A releitura em chave pastoral da Dei Verbum é acompanhada das sucessivas intervenções do Magistério da Igreja, a quem cabe interpretar de forma autêntica o sagrado depósito da fé contido na Tradição e nas Escrituras.

Para facilitar a reflexão e o debate do tema a nível de Igreja universal, o Documento é acompanhado de um pormenorizado Questionário relativo aos assuntos abordados em cada capítulo. Todos os organismos colegiais, acima mencionados, são convidados a responder ao dito Questionário até ao fim do mês de Novembro do presente ano de 2007. O Conselho Ordinário, com a ajuda de alguns válidos especialistas, estudará a referida documentação e ordenará a temática num segundo documento, tradicionalmente chamado Instrumentum laboris, que servirá de ordem do dia da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar, se Deus quiser, de 5 a 26 de Outubro de 2008.

Desde o princípio, a Igreja vive da Palavra de Deus. Em Cristo, Verbo encarnado sob a acção do Espírito Santo, a Igreja é “como que sacramento ou sinal e também instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1). A Palavra de Deus é também o motor inesgotável da missão eclesial, tanto para os que estão perto como para os que estão longe. Obedecendo ao mandato do Senhor Jesus e entregando-se à força do Espírito Santo, a Igreja está, portanto, em permanente estado de missão (cf. Mt 28,19).

Seguindo o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria, humilde Serva do Senhor, o Sínodo pretende favorecer uma total redescoberta da maravilha da Palavra de Deus, que é viva, afiada e eficaz, no próprio coração da Igreja, na sua liturgia e na oração, na evangelização e na catequese, na exegese e na teologia, na vida pessoal e comunitária, bem como nas culturas dos homens, purificadas e enriquecidas pelo Evangelho. Deixando-se despertar pela Palavra de Deus, os cristãos serão capazes de responder a quantos lhes pedirem a razão da sua esperança (cf. 1Pe 3,15), amando o próximo não “por palavras e com a língua, mas por obras e em verdade” (1Jo 3,18). Realizando as boas obras, brilhará diante dos homens a sua luz, reflexo da glória de Deus, e todos louvarão o nosso Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16). A Palavra de Deus, portanto, irradia sobre toda a vida da Igreja, qualificando também a sua presença na sociedade como fermento de um mundo mais justo e pacífico, livre de toda a espécie de violência e aberto à construção de uma civilização do amor.

“A Palavra do Senhor permanece eternamente. Esta é a Palavra que vos foi anunciada” (1Pe 1,25. A reflexão sobre o tema sinodal converte-se em humilde oração para que a redescoberta da Palavra de Deus ilumine cada vez melhor o caminho do homem na Igreja e na sociedade durante o percurso, não poucas vezes tortuoso, da história, enquanto com confiança se esperam “novos céus e uma nova terra, onde habitará a justiça” (2Pe 3,13).

Nikola Eterovic

Arcebispo titular de Sisak

Secretário Geral

Vaticano, 25 de Março de 2007

 

 

INTRODUÇÃO

Porquê um Sínodo sobre a Palavra de Deus?

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos, acerca do Verbo da Vida, é o que nós vos anunciamos. Porque a Vida manifestou-se e nós vimos e damos testemunho dela. Nós vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e nos foi manifestada. Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais também em união connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. E vos escrevemos tudo isto, para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,1-4).

1. “No princípio era a Palavra” (Jo 1,1). “A Palavra do nosso Deus permanece eternamente” (Is 40,8). A Palavra de Deus abre a história com a criação do mundo e do homem: “Deus disse” (Gen 1,3.6ss.); proclama que o seu centro está na Encarnação do Filho, Jesus Cristo: “E o Verbo Se fez carne” (Jo 1,14), e fecha-a com a promessa certa do encontro com Ele numa vida sem fim: “Sim, Eu virei em breve” (Ap 22,20).

É a certeza suprema que o próprio Deus, no seu infinito amor, entende dar ao homem de todos os tempos, fazendo do seu povo a sua testemunha. É esse grande mistério da Palavra como supremo dom de Deus que o Sínodo entende adorar, agradecer, meditar, anunciar à Igreja e a todos os povos.

2. O homem contemporâneo mostra de tantas maneiras que tem uma grande necessidade de ouvir Deus e falar com Ele. Nota-se, hoje, entre os cristãos uma abertura apaixonada para a Palavra de Deus como fonte de vida e graça de encontro do homem com o Senhor.

Não surpreende, portanto, que a essa abertura do homem responda Deus invisível, que, “na abundância do seu amor, fala aos homens como a amigos e conversa com eles, para os convidar e os receber em comunhão com Ele” [1] Esta generosa revelação de Deus é um contínuo acontecimento de graça.

Em tudo isto, vemos a acção do Espírito Santo, que através da Palavra quer renovar a vida e a missão da Igreja, chamando-a a uma constante conversão e enviando-a a anunciar o Evangelho a todos os homens, “para que todos tenham a vida e a tenham com abundância” (Jo 10,10).

3. A Palavra de Deus tem o seu centro na pessoa de Cristo Senhor. A Igreja fez, ao longo dos séculos, uma constante experiência e reflexão do mistério da Palavra. “Que pensais ser a Sagrada Escritura senão a Palavra de Deus? É verdade que são muitas as palavras escritas pela pena dos profetas, mas a totalidade da Escritura é um único Verbo de Deus. Este único Verbo, os fiéis conceberam-no como semente de Deus, seu legítimo esposo, e, gerando-o com boca fecunda, converteram-no em sinais, ou seja, em letras, para fazê-la chegar até nós” . [2]

O Concílio Vaticano II, com a Constituição dogmática sobre a Divina Revelação Dei Verbum, compendia o Magistério solene da Igreja sobre a Palavra de Deus, expondo a sua doutrina e mostrando como praticá-la. A dita Constituição é, com efeito, o fruto de um longo caminho de amadurecimento e de aprofundamento, traçado pelas três Encíclicas Providentissimus Deus de Leão XIII, Spiritus Paraclitus de Bento XV e Divino Afflante Spiritu de Pio XII;[3] um caminho que foi incrementado por uma exegese e teologia renovadas, enriquecido pela experiência espiritual dos fiéis e oportunamente reproposto no Sínodo dos Bispos de 1985 [4] e no Catecismo da Igreja Católica. Depois do Concílio, o Magistério da Igreja universal e local promoveu insistentemente o encontro com a Palavra, na convicção de que esta “trará à Igreja uma nova primavera espiritual” .[5]

A Assembleia Sinodal coloca-se, portanto, dentro do grande respiro da Palavra que Deus dirige ao seu povo, em estreita ligação com os precedentes Sínodos dos Bispos (1965-2006), uma vez que se refaz ao próprio fundamento da fé e se propõe actualizar no nosso tempo os grandes testemunhos de encontro com a Palavra que encontramos no mundo bíblico (cf. Jos 24; Ne 8; Act 2) e ao longo da história da Igreja.

4. Mais especificamente, o presente Sínodo, na continuação do precedente, quer realçar a intrínseca ligação da Eucaristia com a Palavra de Deus, uma vez que a Igreja tem de se alimentar com o único “Pão da vida da mesa quer da Palavra de Deus quer do Corpo de Cristo” .[6] É essa a razão profunda e, ao mesmo tempo, o fim primário do Sínodo: encontrar em plenitude a Palavra de Deus no Senhor Jesus, presente na Escritura e na Eucaristia. Diz São Jerónimo: “A carne do Senhor é verdadeira comida e o seu sangue verdadeira bebida; é esse o verdadeiro bem que nos é reservado na vida presente: alimentar-nos da sua carne e beber o seu sangue, não só na Eucaristia, mas também na leitura da Sagrada Escritura. É, de facto, verdadeira comida e verdadeira bebida a Palavra de Deus que se obtém do conhecimento das Escrituras”. [7]

Mas antes de prosseguir, é para perguntar, à distância de mais de 40 anos do Vaticano II, que frutos trouxe às nossas comunidades o documento conciliar Dei Verbum; qual a sua real aceitação. Não há dúvida que, em relação à Palavra de Deus, se obtiveram muitos resultados positivos no povo de Deus, tais como a renovação bíblica a nível litúrgico, teológico e catequético; a difusão e prática do Livro Sagrado através do apostolado bíblico e o impulso de comunidades e movimentos eclesiais; a crescente disponibilidade de instrumentos e subsídios da comunicação hodierna. Outros aspectos porém mantêm-se ainda abertos e problemáticos. São graves os fenómenos de ignorância e incerteza acerca da própria doutrina da Revelação e da Palavra de Deus; ainda é grande a distância que muitos cristãos têm em relação à Bíblia, e é constante o risco de um uso não correcto da mesma; sem a verdade da Palavra, torna-se insidioso o relativismo do pensamento e da vida. Tornou-se urgente a necessidade de conhecer integralmente a fé da Igreja sobre a Palavra de Deus, de alargar com métodos adequados o encontro com a Sagrada Escritura por parte de todos os cristãos e, ao mesmo tempo, acolher os novos caminhos que o Espírito hoje sugere, para que a Palavra de Deus, nas suas várias manifestações, seja conhecida, ouvida, amada, aprofundada e vivida na Igreja, e assim se torne Palavra de verdade e de amor para todos os homens.

5. A finalidade deste Sínodo é eminentemente pastoral: aprofundando as razões doutrinais e deixando-se iluminar por elas, procura-se estender e reforçar a prática de encontro com a Palavra como fonte de vida nos diversos âmbitos da experiência, propondo, para tal, aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade, caminhos justos e fáceis para poder escutar Deus e falar com Ele.

Concretamente, o Sínodo propõe-se, entre os seus objectivos, contribuir para esclarecer certos aspectos fundamentais da verdade sobre a Revelação, tais como a Palavra de Deus, a Tradição, a Bíblia, o Magistério, que justificam e asseguram um válido e eficaz caminho de fé; acender a estima e o amor profundo pela Sagrada Escritura, fazendo com que “os fiéis tenham amplo acesso” a ela;[8] renovar a escuta da Palavra de Deus, no momento litúrgico e catequético, nomeadamente com o exercício da Lectio Divina, devidamente adaptada às várias circunstâncias; oferecer ao mundo dos pobres uma Palavra de consolação e de esperança.

O presente Sínodo quer, portanto, dar ao povo de Deus uma Palavra que seja pão. Daí que se proponha promover um correcto exercício hermenêutico da Escritura, dando uma boa orientação ao necessário processo de evangelização e de inculturação; entende encorajar o diálogo ecuménico, estreitamente vinculado à escuta da Palavra de Deus; quer favorecer o confronto e o diálogo judeu-cristão [9] e, de uma maneira mais vasta, o diálogo inter-religioso e inter-cultural. O Sínodo entende realizar estes e outros objectivos, seguindo três passagens:

- a Revelação, a Palavra de Deus, a Igreja (cap. I),

- a Palavra de Deus na vida da Igreja (cap. II),

- a Palavra de Deus na missão da Igreja (cap. III).

Será assim possível associar os momentos fundante e operativo da Palavra de Deus na Igreja.

Os presentes Lineamenta não têm, portanto, a intenção de exprimir todas as razões e aplicações de encontro com a Palavra de Deus, mas, à luz do Vaticano II, apontar para as essenciais, sublinhando em simultâneo o dado doutrinal e a experiência em acto e convidando a dar ulteriores e específicos contributos.

PERGUNTAS

Introdução

1. Que 'sinais dos tempos' mostram, no seu país, a urgência deste Sínodo sobre a Palavra de Deus? Que se espera dele?

2. Que relação se pode colher entre o precedente Sínodo sobre a Eucaristia e o actual sobre a Palavra de Deus?

3. Existem tradições de experiência bíblica na sua Igreja particular? Quais? Existem nela grupos bíblicos? Qual a sua tipologia?

CAPÍTULO I

Revelação, Palavra de Deus, Igreja

“Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo” (Heb 1,1-2).

Deus tem a iniciativa. A Revelação divina manifesta-se como Palavra de Deus

6. “Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade” .[10] Perante o risco de manietar o mistério de Deus em esquemas meramente humanos e numa relação fria e arbitrária, o Concílio Vaticano II, na Dei Verbum, faz uma síntese da fé plurissecular da Igreja, indicando as linhas mestras de uma correcta reflexão. Deus manifesta-Se de forma tão gratuita quanto directa para estabelecer uma relação inter-pessoal de verdade e de amor com o homem e com o mundo que criou. Revela-Se a Si mesmo na realidade visível do cosmo e da história “por meio de palavras e acções intimamente conexas” ,[11] mostrando assim uma “economia da Revelação” , ou seja, um projecto que tem em vista a salvação do homem e, com ele, a de toda a criação. É-nos assim revelada, ao mesmo tempo, a verdade sobre Deus uno e trino e a verdade sobre o homem que Deus ama e quer fazer feliz, verdade que atinge o máximo esplendor em Jesus Cristo, que “é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a Revelação” .[12]

Esta relação de comunicação gratuita, que supõe uma profunda comunhão, análoga à da comunicação humana, é qualificada pelo próprio Deus como sua Palavra, 'Palavra de Deus'. Esta tem, portanto, de ser sempre radicalmente compreendida como um acto pessoal de Deus uno e trino que ama e que, por isso, fala, e fala ao homem, para que reconheça o seu amor e lhe corresponda.[13] Prova-o uma leitura atenta da Bíblia desde o Génesis ao Apocalipse. Quando se lê e, sobretudo, se proclama a Palavra de Deus, como acontece na Eucaristia, “sacramento por excelência” [14], e nos outros sacramentos, o próprio Senhor nos convida a 'realizar' um evento inter-pessoal, singular e profundo, de comunhão entre Ele e nós, e entre nós. A Palavra de Deus é, de facto, eficaz e realiza o que afirma (cf. Heb 4,12).

A pessoa humana tem necessidade de Revelação

7. O homem tem a capacidade de conhecer Deus com os meios que Ele mesmo lhe deu (cf. Rom 1, 20), nomeadamente o mundo da criação (liber naturae). Todavia, nas condições históricas em que se encontra, esse conhecimento tornou-se, por causa do pecado, obscuro e incerto e negado por não poucos. Mas Deus não abandona a sua criatura, infundindo nela um íntimo desejo de luz, de salvação e de paz, embora nem sempre consciente. A manter vivo um tal anseio contribuiu o anúncio do Evangelho a todo o mundo, produzindo valores religiosos e culturais. Tais valores ajudam hoje muitos a procurar o Deus de Jesus Cristo.

Na própria vida do povo de Deus nota-se uma profunda aspiração – mais do que necessidade – a saborear uma fé pura e fascinante, que afaste o véu da ignorância, da confusão e da desconfiança em relação a Deus e ao homem, e leve assim a discernir e a reforçar com a verdade de Deus as muitas conquistas do progresso. Pode-se, portanto, falar de uma necessidade profunda e difusa que, à maneira de uma invocação, abre existencialmente à verdade da Revelação, feita pelo próprio Deus em favor da humanidade, ou seja, à escuta da sua Palavra. Interessar-se por ela constitui o fundamento dos objectivos do Sínodo, pelas repercussões de âmbito pastoral, enquanto autentifica e encoraja o processo da nova evangelização e, ao mesmo tempo, permite colher preciosas indicações para o diálogo ecuménico, inter-religioso e cultural.

A Palavra de Deus entrelaça-se com a história do homem e guia o seu caminho

8. Nalgumas culturas, o homem contemporâneo sente-se artífice e, portanto, senhor da sua história, encontrando dificuldade em aceitar que alguém se insira no seu mundo sem dialogar com ele e sem lhe dar as razões da sua presença. Tal atitude pode verificar-se, também em relação a Deus, de uma maneira muitas vezes errada, mas sempre duvidosa. Deus, porém, não podendo calar a verdade da sua Palavra, assegura ao homem que se trata sempre de uma Palavra de amigo, para o seu bem e no respeito da sua liberdade, pedindo-lhe, ao mesmo tempo, uma escuta leal que o leve a meditar. De facto, a Palavra de Deus “tem de aparecer a todo o homem como abertura para os seus próprios problemas, como resposta às suas perguntas, um alargamento aos seus valores e simultaneamente uma satisfação das próprias aspirações” .[15] Ainda à luz da Dei Verbum, é-nos dado saber que a sua Palavra, enquanto pronunciada por Deus, se precede toda a iniciativa e palavra humana, é para abrir ao homem impensáveis horizontes de verdade e de sentido, como atestam Gen 1; Jo 1,1ss; Heb 1,1; Rom 1,19-20; Gál 4,4; Col 1,15-17. Diz São Gregório Magno: “Quando a Escritura se abaixa para usar as nossas pobres palavras, é para que das coisas que nos parecem perto nos faça subir aos poucos, como que por degraus, até à sua sublimidade”.[16]

Desde as origens, Deus quis “abrir o caminho da salvação sobrenatural” .[17] À luz da Escritura, podemos compreender como a sua poderosa Palavra iniciou um diálogo vivo, por vezes dramático, mas por fim vitorioso, com a humanidade, já desde o seu início e, mais tarde, na história do seu povo Israel, chegando à Revelação suprema na história de Jesus Cristo, a sua Palavra eterna feita carne (cf. Jo 1,14). Canta Santo Efrém: “Contemplava eu então o Verbo Criador e comparava-o ao Rochedo que peregrinava com o povo no meio do deserto. Sem recolher nem acumular águas, esse derramava ele sobre o povo torrentes maravilhosas. Não havia nele nenhuma água, mas dele brotavam oceanos; assim, do nada, o Verbo criou as suas obras. Feliz de quem merecer herdar o teu Paraíso! Moisés, no seu Livro, descreve a criação de toda a Natureza, para que a Natureza e o Livro dêem testemunho do seu Criador; a Natureza mediante o uso, o Livro mediante a leitura. São estes os testemunhos que vêm de todo o lado. Encontram-se em todos os tempos, estão presentes em toda a hora, mostrando ao infiel como é ingrato com o Criador”.[18]

Relevante é a incidência pastoral desta visão da Palavra de Deus. Esta entrelaça a sua história com a história humana, faz-se história humana, pelo que a nossa história de homens não é, portanto, composta exclusivamente de pensamentos, palavras e iniciativas humanas. A Palavra de Deus deixa traços vivos na natureza e na cultura, ilumina as ciências do homem para que assumam o seu justo valor, mas por estas ela também é ajudada a pôr em evidência a sua identidade e, ao mesmo tempo, a irradiar o original humanismo que lhe pertence. É sobretudo uma Palavra que escolheu um povo para com ele partilhar o caminho de liberdade e salvação, mostrando a seriedade tenaz e paciente de Deus, de ser um “Emanuel” (Is 7,14), Deus-connosco (Is 8,10; cf. Rom 8,31; Ap 21,3). Daí se explica como a Palavra de Deus, graças ao testemunho da Bíblia, tenha encontrado eco nos pensamentos e expressões do homem através dos séculos, por vezes de forma distorcida e sofredora, como um grito de ajuda, no meio das vicissitudes obscuras da história, produzindo extraordinários efeitos que se manifestam de modo fascinante nos santos. Vivendo os carismas particulares como dom do Espírito Santo, estes mostraram as potencialidades enormes e originais da Palavra de Deus levada a sério.

Hoje é de particular relevância ajudar a compreender a justa relação entre a Revelação pública e constitutiva do Credo cristão e as revelações privadas, discernindo a correspondência destas com a fé genuína.

Jesus Cristo é a Palavra de Deus feita carne, a plenitude da Revelação

9. “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho” (Heb 1,1s).

Os cristãos em geral se apercebem da centralidade da pessoa de Jesus Cristo na Revelação de Deus, mas nem sempre sabem colher as razões dessa importância e compreender em que sentido Jesus é o coração da Palavra de Deus; daí que, também na leitura da Bíblia, não lhes seja fácil fazer dela uma leitura cristã.

No entanto e sempre à luz da Dei Verbum, recorde-se que Deus quis uma iniciativa de todo imprevisível, mas que se realizou: “Mandou o seu Filho, ou seja, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para morar no meio deles e explicar-lhes os segredos de Deus (cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, mandado como homem aos homens, 'diz palavras de Deus' (Jo 3,34) e realiza a obra de salvação que Lhe é confiada pelo Pai (cf. Jo 5,36; 17,4)”.[19] Deste modo, Jesus, na sua vida terrena e agora na celeste, assume e realiza todo o fim, o sentido, a história e o projecto que a Palavra de Deus contém, porque, como diz Santo Ireneu: “Cristo trouxe-nos a novidade inteira, ao trazer-nos a Si mesmo”.[20]

É pastoralmente importante, à luz de Jesus Cristo, saber colher, por analogia, a valência múltipla que tem a Palavra de Deus na fé da Igreja, segundo o testemunho da própria Bíblia. Manifesta-se, de facto, como Palavra eterna em Deus, irradia na criação, assume perfil histórico nos profetas, manifesta-se na pessoa de Jesus, ecoa na voz dos apóstolos, e hoje é proclamada na Igreja. Forma um conjunto, cuja chave de interpretação, pela inspiração do Espírito Santo, é Cristo-Palavra. “A Palavra de Deus, que no princípio estava junto de Deus, não é, na sua plenitude, uma multiplicidade de palavras; não são muitas palavras, mas uma só Palavra que abarca um grande número de ideias, de que cada ideia é uma parte da Palavra na sua totalidade (...). E se Cristo apela para as 'Escrituras', como as que d'Ele dão testemunho, considera os livros da Escritura um único rolo, porque tudo o que foi escrito sobre Ele é recapitulado num só todo” .[21] Vê-se assim uma continuidade na diferença.

A Igreja dá o seu essencial anúncio desta riqueza da Palavra. A comunidade cristã sente-se gerada e renovada da Palavra de Deus, quando sabe compreendê-la em Jesus Cristo. Mas também é verdade que a Palavra de Jesus (que é Jesus) deve ser compreendida, como Ele mesmo dizia, segundo as Escrituras (cf. Lc 24, 44-49), ou seja, na história do povo de Deus do Antigo Testamento, que O esperou como Messias, e agora na história da comunidade cristã, que O anuncia com a pregação, medita n'Ele com a Bíblia, experimenta a sua amizade e a sua guia na vida. São Bernardo afirma que, no plano da Encarnação da Palavra, Cristo é o centro de todas as Escrituras. A Palavra de Deus, que já se ouvia no Antigo Testamento, tornou-se visível em Cristo.[22]

A Palavra de Deus como uma sinfonia

10. As indicações acima dadas permitem agora delinear o sentido que a Igreja, à luz da Revelação, dá à Palavra de Deus. É como uma sinfonia tocada por uma variedade de instrumentos, enquanto Deus comunica a sua Palavra de muitas formas e de muitos modos (cf. Heb 1,1), dentro de uma longa história e com uma diversidade de anunciadores, mas onde aparece uma hierarquia de significados e de funções. É correcto falar de sentido análogo da Palavra.

a – À luz da Revelação, a Palavra de Deus é o Verbo eterno de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Pai, fundamento da comunicação intra-trinitária e ad extra: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava, ao princípio, junto de Deus. Tudo se fez por meio d'Ele, e, sem Ele, nada se fez” (Jo 1,1-3; cf. Col 1,16).

b – Por isso, o mundo criado “narra a glória de Deus” (Sal 19,1); tudo é sua voz (cf. Sir 46,17; Sal 68,34). No princípio do tempo, com a sua Palavra, Deus cria o cosmo, pondo na criação a marca da sua sabedoria, de que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é o intérprete natural (cf. Gen 1,26-27; Rom 1,19-20). Da Palavra, com efeito, o homem recebe a palavra para entrar em diálogo com Deus e com a criação. Assim, Deus fez da criação inteira, e do homem in primis, “um testemunho perene de Si mesmo” .[23]

c – “O Verbo fez-Se carne” (Jo 1,14): a Palavra por excelência de Deus, a Palavra última e definitiva, é Jesus Cristo, a sua pessoa, a sua missão, a sua história intimamente unidas, segundo o plano do Pai, que culmina na Páscoa e tem a sua realização definitiva quando Jesus entregar o Reino ao Pai (cf. 1Cor 15,24). Ele é o Evangelho de Deus para o homem (cf. Mc 1,1).

d – Em vista da Palavra, que é o Filho encarnado, o Pai falou nos tempos antigos aos pais por meio dos profetas (cf. Heb 1,1) e, em força do Espírito, os Apóstolos continuam a anunciar Jesus e o seu Evangelho. Assim, ao serviço da única Palavra de Deus, as palavras do homem são assumidas como palavras de Deus, que ressoam no anúncio dos profetas e dos Apóstolos.

e – A Sagrada Escritura, fixando por divina inspiração a Palavra de Jesus com as palavras dos profetas e dos Apóstolos, atesta-o de forma autêntica, e assim ela contém a Palavra de Deus e, enquanto inspirada, é verdadeiramente Palavra de Deus,[24] totalmente orientada à Palavra, que é Jesus, porque “as Escrituras, precisamente elas, dão testemunho de Mim” (Jo 5,39). Pelo carisma da inspiração, os livros da Sagrada Escritura têm uma força de apelo directo e concreto que outros textos e intervenções eclesiásticas não têm.

f – Mas a Palavra de Deus não fica bloqueada na escrita. Se, na verdade, o acto da Revelação terminou com a morte do último apóstolo,[25] a Palavra revelada continua a ser anunciada e escutada na história da Igreja, que se empenha a proclamá-la ao mundo para responder às suas expectativas. Assim, a Palavra continua o seu curso na pregação viva e nas muitas outras formas de serviço de evangelização, pelo que a pregação é Palavra de Deus, comunicada pelo Deus vivo a pessoas vivas em Jesus Cristo, através da Igreja. De um tal quadro pode-se compreender que, quando se prega a revelação de Deus, dá-se na Igreja um acontecimento que se pode chamar verdadeiramente Palavra de Deus.

Devem reconhecer-se na Palavra de Deus todas as qualidades de uma verdadeira comunicação inter-pessoal, como, por exemplo, uma função informativa, enquanto Deus comunica a sua verdade; uma função expressiva, enquanto Deus faz transparecer a sua maneira de pensar, de amar e de agir; uma função apeladora, enquanto Deus interpela e chama a uma escuta e a uma resposta de fé.

Caberá aos pastores ajudar os fiéis a ter essa visão harmónica da Palavra, evitando formas erradas ou redutivas ou de compreensão ambígua, metendo em realce a sua ligação intrínseca com o mistério de Deus uno e trino e a sua revelação, a sua manifestação no mundo criado e a sua presença germinal na vida e na história do homem, a sua suprema expressão em Jesus Cristo, a sua atestação infalível na Sagrada Escritura, a sua transmissão na Tradição viva. Em relação ao mistério de Palavra de Deus, convertida em linguagem humana, ter-se-á em conta a investigação das ciências sobre a linguagem e a sua comunicação.

À Palavra de Deus corresponde a fé do homem. A fé manifesta-se na escuta

11. “A Deus que Se revela deve prestar-se a obediência da fé”.[26] A Ele que, ao falar, Se doa, o homem, ao escutar, “entrega-se (...) livre e totalmente”.[27] Isso implica da parte da comunidade e de cada crente uma resposta plena a uma proposta de total comunhão com Deus e de adesão à sua vontade.[28] Esta atitude de fé comunional manifestar-se-á, em cada encontro com a Palavra, na pregação viva e na leitura da Bíblia. Não é por acaso que a Dei Verbum propõe para o encontro com o Livro Sagrado quanto globalmente afirma para a Palavra de Deus: “Deus (...) fala aos homens como a amigos (...) para os convidar e os receber em comunhão com Ele” .[29] “Nos Livros Sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles”.[30] Revelação é comunhão de amor, que a Escritura frequentemente exprime com o termo “aliança” (Gen 9,9; 15,18; Ex 24,1-18; Mc 14,24).

Aborda-se aqui um aspecto de notável incidência pastoral: a fé diz respeito à Palavra de Deus em todos os seus sinais e linguagens. É uma fé que, em virtude da acção do Espírito Santo, recebe da Palavra uma comunicação de verdade, através da narração ou da fórmula doutrinal; uma fé que reconhece à Palavra a prerrogativa de ser estímulo primário para uma conversão eficaz, luz para responder às muitas perguntas da vida do crente, guia para um recto discernimento sapiencial da realidade, solicitação para 'praticar' a Palavra (cf. Lc 8,21), e não só para a ler ou proferir, e finalmente fonte permanente de consolação e de esperança. Daí deriva, como sólida lógica da fé, o dever de reconhecer e garantir o primado da Palavra de Deus na própria vida de crentes, recebendo-a como a Igreja a anuncia, compreende, explica e vive.

Maria, modelo de acolhimento da Palavra para o crente

12. No caminho de penetração do mistério da Palavra de Deus, Maria de Nazaré, a partir do acontecimento da Anunciação, torna-se mestra e mãe da Igreja e modelo vivo de todo o encontro pessoal e comunitário com a Palavra, que ela acolhe na fé, medita, interioriza e vive (cf. Lc 1,38; 2,19.51; Act 17,11). Maria, com efeito, escutava e meditava nas Escrituras, associando-as às palavras de Jesus e aos acontecimentos que ia descobrindo na sua história. Diz Isaac de l'Etoile: “Nas Escrituras, divinamente inspiradas, o que é dito em geral da virgem mãe Igreja, é entendido singularmente da virgem mãe Maria. Herança do Senhor são de modo universal a Igreja, de modo especial Maria, de modo particular toda a alma fiel. No tabernáculo do seio de Maria, Cristo morou nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, até ao fim do mundo; no conhecimento e no amor da alma fiel, por toda a eternidade”.[31]

A Virgem Maria sabe olhar à sua volta e vive as urgências do quotidiano, ciente de que o que recebe do Filho como dom é um dom para todos. Ela ensina a não ser alheios espectadores de uma Palavra de vida, mas a tornar-se participantes, deixando-se guiar pelo Espírito Santo que habita no crente. Ela 'glorifica' o Senhor, ao descobrir na sua vida a misericórdia de Deus, que a faz 'bem-aventurada', porque “acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1,45). Convida, além disso, todo o crente a fazer próprias as palavras de Jesus: “Felizes os que acreditam sem ter visto” (Jo 20,29). Maria é a imagem do verdadeiro orante da Palavra, que sabe guardar com amor a Palavra de Deus, transformando-a em serviço de caridade, memória permanente, para manter acesa a lâmpada da fé no quotidiano da existência. Diz Santo Ambrósio que todo o cristão que crê concebe e gera o Verbo de Deus. Se há só uma mãe de Cristo segundo a carne, já, segundo a fé, Cristo é o fruto de todos.[32]

A Palavra de Deus, confiada à Igreja, transmite-se a todas as gerações

13. “Dispôs Deus, em toda a sua benignidade, que tudo quanto revelara para a salvação de todos permanecesse íntegro para sempre e fosse transmitido a todas as gerações” .[33]

Amigo e Pai dos homens, Deus ainda fala. De certo modo, a Revelação, embora concluída, continua a comunicar, pelo que a Palavra de Deus é para nós sempre contemporânea e actual. Antes, pode manifestar ainda mais o seu contributo de luz e fazer crescer a nossa compreensão. Isso acontece porque o Pai, dando o Espírito de Jesus à Igreja, confia a esta o tesouro da revelação,[34] torna-a primeira destinatária e testemunha privilegiada da Palavra amorosa e salvífica de Deus.

Por isso, na Igreja a Palavra não é depósito inerte, mas, tornando-se “norma suprema da fé” e potência de vida, “progride sob a assistência do Espírito Santo” e “cresce” com a “reflexão e estudo dos crentes” , com a experiência pessoal de vida espiritual e a pregação dos Bispos.[35] Testemunham-no de modo especial os homens de Deus, que 'habitaram' a Palavra.[36] É evidente que a verdadeira e primária missão da Igreja é transmitir a divina Palavra a todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares, segundo o mandato de Jesus (cf. Mt 28,18-20). A história atesta como isso se deu e continua a dar também agora, depois de tantos séculos, no meio de diversos obstáculos, mas também com tanta vitalidade e fecundidade.

Tradição e Escritura na Igreja, um só depósito sagrado da Palavra de Deus

14. A este respeito, é fundamental recordar que a Palavra de Deus, em Jesus Cristo convertida em Evangelho ou feliz notícia e, como tal, entregue à pregação apostólica, continua o seu curso através de dois pontos de referência, reconhecíveis e estreitamente interligados: por um lado, o fluxo vital da Tradição viva, manifestada por “tudo o que ela é e por tudo aquilo em que ela acredita” [37]e, portanto, pelo culto, pela doutrina e pela vida da Igreja e, por outro lado, a Sagrada Escritura, que desta Tradição viva, por inspiração do Espírito Santo, conserva, precisamente na imutabilidade da escrita, os elementos constitutivos e originários. “Portanto, a Sagrada Tradição e a Escritura Sagrada de um e outro Testamento são como que um espelho, no qual a Igreja, peregrinando na terra, contempla a Deus, de Quem tudo recebe, até que seja conduzida a vê-l'O face a face, tal qual Ele é (cf. 1Jo 3,2)” .[38] Ao Magistério da Igreja, que não está acima da Palavra de Deus, cabe o múnus de “interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida” .[39]

O Concílio Vaticano II insiste sobre a unidade de origem e sobre as múltiplas conexões entre Tradição e Escritura: a Igreja acolhe-as “com igual afecto de piedade e reverência” .[40] Um insubstituível dever de serviço é prestado pelo Magistério, quando, garantindo uma interpretação autêntica da Palavra de Deus, a “ouve piamente, guarda santamente e fielmente expõe” [41].

Do ponto de vista pastoral, seguindo a doutrina da Igreja, devem ser esclarecidas conceptualmente e traduzidas em experiência de vida as relações entre Tradição e Escritura, como, por exemplo, o facto de a Tradição preceder originariamente a Escritura, e ser sempre como que o seu húmus vital, que “permite compreender mais profundamente e tornar incessantemente mais operantes as próprias Sagradas Letras” .[42] Como, por outro lado, “se deve aplicar por excelência à Sagrada Escritura o que foi dito: 'a Palavra de Deus é viva e eficaz (Heb 4,12), e tem poder de edificar e dar herança a todos os santificados' (Act 30,32; cf. 1 Tes 2,13)”.[43] A Sagrada Escritura e a Tradição são ambas canais que comunicam a Palavra de Deus, a qual, por conseguinte, possui a sua plenitude de sentido e de graça na experiência de ambas, 'uma dentro da outra', pelo que, nesta óptica, se podem chamar e são Palavra de Deus.

São várias as consequências de uma notável incidência no âmbito pastoral. Não pode haver uma 'sola Scriptura' isolada: a Escritura está ligada à Igreja, isto é, ao sujeito que acolhe e compreende tanto a Tradição como a Escritura. A Escritura desempenha um papel essencial para ter acesso à Palavra na sua genuinidade fontal, tornando-se assim critério para a recta compreensão da Tradição.

Deve-se, portanto, considerar nos seus efeitos práticos a distinção entre a Tradição apostólica constitutiva, a tradição posterior que interpreta e actualiza e as demais tradições eclesiásticas; como também deverá avaliar-se o alcance decisivo do reconhecimento canónico que a Igreja operou relativamente às Escrituras, garantindo a sua autenticidade (73 livros: 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento), [44] perante a proliferação de livros não autênticos ou apócrifos, de ontem, de hoje e de sempre.

Permanecem, por fim, e sempre como pano de fundo, o confronto e o diálogo delicado, necessário e apaixonado entre Escritura e Tradição com os sinais da Palavra de Deus no mundo criado, nomeadamente com o homem e a sua história.[45]

No sulco da Tradição viva e, portanto, como serviço genuíno à Palavra de Deus, deve também atender-se à forma do Catecismo, desde o primeiro Símbolo da fé, núcleo de todo o Catecismo, até às diversas exposições feitas no decorrer dos séculos, cujas expressões mais recentes são, na Igreja universal, o Catecismo da Igreja Católica e, nas Igrejas locais, os respectivos Catecismos.

Sagrada Escritura, Palavra de Deus inspirada

15. “ Sagrada Escritura é Palavra de Deus enquanto consignada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo”.[46] É qualificada sobretudo com dois nomes: Escritura (sagrada) e Bíblia, títulos por si já significativos, como sendo o Texto e o Livro por excelência, com uma difusão que supera os confins da Igreja.

Em linha de princípio, pela sua incidência operativa na leitura da Bíblia, devem ser considerados os seguintes pontos: no quadro teológico de referência acima acenado, a Escritura e a Tradição comunicam de forma imutável a Palavra de Deus e fazem ressoar “a voz do Espírito Santo”;[47] o significado do carisma da inspiração, com que o Espírito Santo faz dos livros bíblicos Palavra de Deus e os confia à Igreja, para serem, portanto, acolhidos na obediência da fé; a unidade do Cânone como critério de interpretação da Sagrada Escritura; a compreensão da verdade da Bíblia, antes de mais, como “a verdade que Deus, para a nossa salvação, quis consignar nas Sagradas Letras”;[48] o sentido e o alcance da identidade da Bíblia como Palavra de Deus em linguagem humana, pelo que a interpretação da Bíblia se faz de forma unitária, sob a guia da fé, com critérios filosóficos e teológicos, à luz sobretudo da Nota da Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja.[49]

Hoje, cada vez mais se nota no povo de Deus, como já observava Amós, uma fome e sede da Palavra de Deus (cf. Am 8,11-12). É uma necessidade vital a não minimizar, porque é o próprio Senhor que está a suscitá-la. Por outro lado, também se nota com tristeza como essa necessidade não seja sentida por toda a parte, porque a Palavra de Deus circula pouco e ainda não se favorece de modo adequado o encontro com o Livro Sagrado. Ajudar os fiéis a compreender o que é a Bíblia, porque existe, o que ela dá à fé, como se a usa, é uma exigência importante a que a Igreja deu sempre resposta, e ainda hoje responde de modo especial em quatro capítulos da Dei Verbum.[50] Conhecê-los adequadamente, servindo-se de outros contributos do Magistério e de uma séria investigação, torna-se uma tarefa imprescindível nas nossas comunidades.

Interpretar a Palavra de Deus na Igreja, uma tarefa necessária e delicada

16. A visão de tantos cristãos que, em comunidade ou individualmente, perscrutam de forma muito tão intensa a Palavra de Deus no Livro Sagrado, é para a Igreja uma preciosa possibilidade de habilitar os fiéis a uma sua correcta compreensão e actualização. De certo modo, isso mais se impõe hoje, que se abre um novo confronto entre a Palavra de Deus e as ciências do homem, nomeadamente no âmbito da investigação filosófica, científica e histórica. Reconhece-se a riqueza em termos de verdade e de valores sobre Deus, o homem e as coisas, que provém desse contacto entre Palavra e cultura, como também se propõe um constante confronto sobre problemas inéditos. A razão, portanto, interpela a fé e é por esta instigada a colaborar para uma verdade e vida que sejam conformes à revelação de Deus e às expectativas da humanidade.[51]

Não faltam, porém, também os riscos de uma interpretação arbitrária e redutiva, como é o fundamentalismo: por um lado, pode manifestar o desejo de ser fiéis ao texto, mas, por outro, despreza a própria natureza dos textos, caindo em graves erros e gerando mesmo conflitos inúteis.[52] Outros riscos provêm das leituras “ideológicas” ou simplesmente humanas, sem o suporte da fé (cf. 2Pe 1,19-20; 3,16), que chegam a configurar-se na contraposição e separação entre forma escrita atestada antes de mais na Bíblia, forma viva do anúncio e experiência de vida dos crentes. Torna-se igualmente difícil reconhecer o papel que cabe ao Magistério no serviço da Palavra de Deus, tanto em relação à Bíblia como à Tradição. Em geral, nota-se um fraco ou impreciso conhecimento das regras hermenêuticas relativas à identidade da Palavra, feitas de critérios humanos e revelados, no contexto da Tradição eclesial e em obséquio ao Magistério.

À luz do Vaticano II e do Magistério sucessivo,[53] alguns aspectos parecem carecer hoje de uma atenção e reflexão específicas, em vista de uma adequada comunicação pastoral; ou seja, a Bíblia, livro de Deus e do homem, deve ser lida unificando de modo correcto o sentido histórico-literal com o sentido teológico-espiritual.[54] Isso significa que, para uma correcta exegese, é necessário o método histórico-crítico, convenientemente enriquecido com outras formas de abordagem.[55] Há que enfrentar o problema interpretativo da Escritura, mas, para se chegar ao seu sentido total, é necessário recorrer a critérios teológicos, repropostos pela Dei Verbum: “conteúdo e unidade de toda a Sagrada Escritura, Tradição viva de toda a Igreja, e analogia da fé” .[56] Sente-se hoje a necessidade de uma aprofundada reflexão teológica e pastoral para formar as comunidades a uma inteligência recta e frutuosa da Sagrada Escritura como Palavra de Deus, compreendida no mistério da cruz e ressurreição de Jesus Cristo, vivo na Igreja.

“Por outras palavras – afirma o Papa Bento XVI – é meu grande desejo que os teólogos aprendam a ler e a amar a Escritura do modo como, segundo a Dei Verbum, o Concílio quis: que vejam a unidade interior da Escritura uma coisa hoje ajudada pela 'exegese canónica' (que sem dúvida ainda se encontra num tímido estádio inicial) e que depois façamos dela uma leitura espiritual, que não é algo exterior, de carácter edificante, mas ao contrário, um imerger-se interiormente na presença da Palavra. Parece-me uma tarefa muito importante fazer algo neste sentido, contribuir para que, paralelamente à exegese histórico-científica seja feita deveras uma introdução à Escritura viva, como Palavra de Deus actual”.[57]

Numa tal perspectiva, há que ter cuidadosamente em conta o contributo do Catecismo da Igreja Católica, as diversas ressonâncias e tradições que a Bíblia suscita na vida do povo de Deus e o contributo das ciências teológicas e humanas.

A par de todo este empenho, não se pode esquecer a interpretação da Palavra de Deus, que se realiza todas as vezes que a Igreja se reúne para celebrar os divinos mistérios. A esse respeito, recorda a Introdução ao Leccionário proclamado na Eucaristia: “Já que, por vontade do próprio Cristo, o novo povo de Deus é distinto na admirável variedade dos seus membros, assim também são diferentes as tarefas e os encargos que pertencem a cada um no que diz respeito à Palavra de Deus: aos fiéis cabe ouvi-la e meditá-la; já o expô-la pertence apenas àqueles que, em força da Sagrada Ordenação, têm a função magisterial, ou àqueles a quem foi confiado o exercício deste ministério. Assim, na doutrina, na vida e no culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela mesma é, tudo aquilo em que ela crê, para assim tender sem cessar, ao longo dos séculos, à plenitude da verdade divina, até que nela se realize a Palavra de Deus”.[58]

Antigo e Novo Testamento, uma só economia da salvação

17. Não se pode estar completamente satisfeitos com o conhecimento e a prática que tantos têm das Escrituras. Também por dificuldades não resolvidas, assiste-se por vezes a uma certa resistência perante certas páginas do Antigo Testamento que se afiguram difíceis, sujeitas a serem postas de lado, a uma selecção arbitrária, a uma recusa. Segundo a fé da Igreja, o Antigo Testamento deve ser tido como parte da única Bíblia dos cristãos, reconhecendo os seus valores permanentes, a relação que liga os dois Testamentos.[59] De tudo isto nasce a necessidade de uma urgente formação à leitura cristã do Antigo Testamento. Neste ponto, vem em nossa ajuda a praxe litúrgica, que sempre proclama o Antigo Testamento como página essencial para uma compreensão plena do Novo Testamento, como atesta o próprio Jesus no episódio de Emaús, onde o Mestre “começando a falar de Moisés e de todos os profetas lhes explicou em todas as Escrituras o que a Ele se referia” (Lc 24,27). As Leituras litúrgicas do Antigo Testamento oferecem, pois, um precioso itinerário para o encontro orgânico e articulado com o Texto Sagrado. Fá-lo, quer no uso do Salmo Responsorial que convida a rezar e a meditar quanto foi anunciado, quer na aproximação temática entre a primeira Leitura e o Evangelho na perspectiva de síntese do mistério de Cristo. Com efeito, reza o antigo ditado que o Novo Testamento está oculto no Antigo, e o Antigo é desvelado no Novo Testamento: Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet.[60]

Diz São Gregório Magno: “O que o Antigo Testamento prometeu, o Novo Testamento o mostrou; o que aquele anuncia de forma velada, este proclama-o abertamente como sendo presente. Por isso, o Antigo Testamento é profecia do Novo Testamento; e o melhor comentário do Antigo Testamento é o Novo Testamento” .[61]

Quanto ao Novo Testamento, hoje certamente mais familiar na prática bíblica, graças também à riqueza dos Leccionários e da Liturgia das Horas, há que recordar o valor central dos Evangelhos, por isso proclamados de forma completa nos três anos do ciclo litúrgico festivo e cada ano nos dias feriais, não esquecendo, todavia, o grande ensinamento de Paulo e dos outros Apóstolos.[62]

PERGUNTAS

Capítulo I

1. Conhecimento da Palavra de Deus na história da salvação

Entre os fiéis (paróquias, comunidades religiosas, movimentos), que ideia se tem de Revelação, Palavra de Deus, Bíblia, Tradição, Magistério? Colhem-se os diversos níveis de significado de Palavra de Deus? Jesus Cristo é visto como centro da Palavra de Deus? Qual a relação entre Palavra de Deus e Bíblia? Quais os aspectos menos compreendidos? Por que razões?

2. Palavra de Deus e Igreja

Em que medida a abordagem da Palavra de Deus incrementa a consciência viva de pertencer à Igreja, Corpo de Cristo, e mobiliza para a autêntica missão eclesial? Como é compreendida a relação entre Palavra de Deus e Igreja? Entre Bíblia e Tradição, mantém-se uma correcta relação no estudo exegético e teológico e nos encontros com o Livro Sagrado? A catequese é guiada pela Palavra de Deus? Esta valoriza bem a Sagrada Escritura? Como se colhe a importância e a responsabilidade do Magistério na proclamação da Palavra de Deus? Existe uma genuína escuta de fé da Palavra de Deus? Quais os aspectos a esclarecer e a reforçar?

3. Indicações de fé da Igreja sobre a Palavra de Deus

Que acolhimento teve a Dei Verbum? E o Catecismo da Igreja Católica? Qual o específico papel magisterial dos Bispos no apostolado da Palavra de Deus? Qual o papel dos ministros ordenados, presbíteros e diáconos, na proclamação da Palavra (cf. LG 25.28)? Que relação deve existir entre a Palavra de Deus e a vida consagrada? Como intervém a Palavra de Deus na formação dos futuros presbíteros? De que orientações tem hoje necessidade o povo de Deus no tocante a Palavra de Deus, e nomeadamente os presbíteros, os diáconos, as pessoas consagradas e os leigos?

4. A Bíblia como Palavra de Deus

Quais as razões que hoje levam os cristãos a desejar a Bíblia? Que contributo esta dá à vida de fé? Como é acolhida no mundo não cristão? E entre as pessoas de cultura? Pode-se falar de uma abordagem sempre correcta da Escritura? Quais os defeitos mais comuns? Como é compreendido o carisma da inspiração e da verdade da Escritura? Tem-se em conta o sentido espiritual da Escritura como sentido último querido por Deus? Como é acolhido o Antigo Testamento? Se os Evangelhos são os mais usados, podem considerar-se suficientes o seu conhecimento e a sua leitura? Quais são as 'páginas difíceis' da Bíblia hoje mais problemáticas e que se devem enfrentar?

5. A fé na Palavra de Deus

Quais são as atitudes dos crentes perante a Palavra de Deus? A sua escuta é feita numa fé intensa e tem em vista gerar a fé? Quais são as razões que levam à leitura da Bíblia? Podem-se indicar critérios de discernimento sobre o acolhimento crente da Palavra?

6. Maria e a Palavra de Deus

Porque é que Maria é mestra e mãe na escuta da Palavra de Deus? Como é que ela a acolheu e viveu? De que modo Maria pode ser modelo do cristão que escuta, medita e vive a Palavra de Deus?

CAPÍTULO II

A Palavra de Deus na vida da Igreja

“Assim a Palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão” (Is 55,11).

A Igreja nasce e vive da Palavra de Deus

18. A Igreja confessa que é continuamente chamada e gerada pela Palavra de Deus. Por isso, para poder proclamá-la com amor e vigor, se coloca primeiro e constantemente “em religiosa escuta” [63]da mesma, deixa-se interpelar e ser interiormente tocada por ela, acolhe-a com fé humilde e confiante, imitando Maria, que escuta e põe em prática a Palavra (cf. Lc 1,38), e que, por isso, o Senhor constitui modelo da Igreja.

Nesta perspectiva de adesão à Palavra, a comunidade cristã encontra a Sagrada Escritura. “Com efeito, nos Livros Sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles” .[64] A Escritura, portanto, encontra-se no coração e nas mãos da Igreja como a “Carta que Deus enviou aos homens” ,[65] o livro de vida, objecto de profunda veneração, analogamente ao próprio Corpo de Cristo.[66] Nela, a Igreja descobre qual é o plano que Deus tem para ela, para o mundo dos homens e das coisas. Por isso, “considera-a, juntamente com a Sagrada Tradição, como a regra suprema da sua fé” , proclama-a com vigor e encontra-a como “alimento da alma e fonte de vida espiritual” .[67]

Da Igreja, o cristão recebe a Bíblia; com a Igreja, lê-a e partilha o seu espírito e objectivos, procurando, assim, a finalidade suprema de todo o encontro com a Palavra, como Jesus nos ensinou: o cumprimento da vontade de Deus com uma vida de fé, de esperança e caridade no seguimento do Mestre (cf. Lc 8,19-21).

A Palavra de Deus ampara a Igreja ao longo de toda a sua história

19. É um dado constante, na vida do povo de Deus, receber força da Palavra, e isso desde o tempo em que o profeta falava ao seu povo, Jesus à multidão e aos discípulos, os apóstolos à primeira comunidade, até aos nossos dias. Deve-se, portanto, observar atentamente como a presença da Palavra, sobretudo no testemunho da Bíblia, caracteriza as diversas épocas no mundo bíblico e na história da Igreja.

Assim, no tempo dos Padres, a Escritura é o centro, como que a fonte donde se nutrem a teologia, a espiritualidade e a vida pastoral. Os Padres são os mestres insuperáveis daquela leitura 'espiritual' da Escritura, que, quando é genuína, não é destruição da 'letra', ou seja, de um saudável sentido histórico, mas é capacidade de ler no Espírito também a letra. Na Idade Média, a Sagrada Página constitui a base da reflexão teológica; para poder compreendê-la, elabora-se a doutrina dos quatro sentidos (letra, alegoria, tropologia, anagogia);[68] na linha de uma antiga tradição, a Lectio Divina constitui a forma monástica da oração; é fonte para a inspiração artística; transmite-se ao povo nas múltiplas formas da pregação e da piedade popular.[69] Na Idade Moderna, o afirmar-se do espírito crítico, o progresso científico, a divisão dos cristãos e o subsequente empenho ecuménico, estimulam, não sem dificuldades e contrastes, uma mais correcta metodologia de abordagem e, ao mesmo tempo, uma melhor compreensão do mistério da Escritura no seio da Tradição. Nos nossos dias, temos o projecto de renovação, baseado na centralidade da Palavra de Deus, de que foi o grande artífice o Concílio Vaticano II.

Para além de uma pluralidade histórica de formas, há que considerar também uma pluralidade geográfica. A Palavra de Deus, graças sobretudo a um contínuo contacto com a Bíblia, difunde-se e evangeliza as diversas Igrejas particulares nos cinco continentes; incultura-se progressivamente nelas, tornando-se alma vivificante da fé de muitos povos, factor fundamental de comunhão na Igreja, testemunho da inesgotável riqueza do seu mistério, fonte permanente de inspiração e de transformação das culturas e da sociedade.

A Palavra de Deus preenche e anima, no poder do Espírito Santo, toda a vida da Igreja

20. O Espírito Santo, que guia a Igreja à verdade todal (cf. Jo 16,13), permite compreender o verdadeiro sentido da Palavra de Deus, levando finalmente a um encontro sem véu com o próprio Verbo, o Filho de Deus, Jesus de Nazaré, Revelador do Pai. O Espírito é a alma e o exegeta da Sagrada Escritura, que é Palavra de Deus posta por escrito sob a sua inspiração. Por isso, a Sagrada Escritura deve ser “lida e interpretada com a ajuda do mesmo Espírito com que foi escrita” [70]. A Igreja, guiada pelo Espírito, procura “alcançar uma inteligência cada vez mais profunda das Sagradas Escrituras”[71] para nutrir os seus filhos, servindo-se em especial do estudo dos Padres do Oriente e do Ocidente, da investigação exegética e teológica, da vida dos que deram testemunho e dos santos.

Preciosa nesse sentido é a linha traçada na Introdução ao Leccionário, onde se afirma: “Para que Palavra de Deus realize verdadeiramente nos corações o que faz ressoar aos ouvidos, requer-se a acção do Espírito Santo; sob a sua inspiração e com a sua ajuda, a Palavra de Deus torna-se fundamento da acção litúrgica, norma e apoio de toda a vida. A acção do mesmo Espírito Santo não só precede, acompanha e segue toda a acção litúrgica, mas sugere ao coração de cada um (cf. Jo 14,15-17.25-26; 15,26-16,15) tudo o que na proclamação da Palavra de Deus é dito para toda a Assembleia dos fiéis e, fortalecendo a unidade entre todos, favorece também a diversidade dos carismas e valoriza a sua multíplice acção” .[72]

A comunidade cristã, portanto, constrói-se todos os dias, deixando-se conduzir pela Palavra de Deus sob a acção do Espírito Santo, acolhendo o dom de iluminação, conversão e consolação, que o Espírito comunica através da Palavra. Com efeito, “tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, mantenhamos viva a nossa esperança” (Rom 15,4).

Torna-se tarefa primária da Igreja ajudar os fiéis a compreender o que significa encontrar a Palavra de Deus sob a guia do Espírito, e como, de modo particular, tal aconteça na leitura espiritual da Bíblia; em que sentido a Bíblia, a Tradição e o Magistério são interiormente unificados pelo Espírito; que atitude se exige do crente, também ele guiado pelo Espírito Santo, recebido no Baptismo e nos diversos Sacramentos. Diz Pedro Damasceno: “Aquele que tem experiência do sentido espiritual das Escrituras sabe que o sentido da mais simples Palavra da Escritura e o da excepcionalmente mais sábia são uma só coisa e têm em vista a salvação do homem” .[73]

A Igreja alimenta-se da Palavra de várias maneiras

21. É necessário que toda a pregação eclesiástica, bem como a própria religião cristã, se alimentem e se orientem na Sagrada Escritura“.[74] O voto de São Paulo, fortalecido pela oração, de “que a Palavra do Senhor se propague e seja glorificada”(2 Tes 3,1) está a realizar-se, com diferentes modalidades, nos vários âmbitos e expressões de vida da Igreja. É um processo que requere a atenção da fé, a dedicação apostólica, uma cura pastoral inteligente, criadora e constante, e que se aprende também na experiência partilhada. Uma pastoral bíblica, ou melhor, uma pastoral constantemente animada pela Bíblia, é uma exigência que hoje se propõe a toda a comunidade na Igreja.

Nesta perspectiva de unidade e de interacção, deve reconhecer-se e favorecer-se plenamente o dinamismo, com o qual a Palavra de Deus nos encontra, um dinamismo que está na base de toda a acção pastoral da Igreja: a Palavra anunciada e escutada pede para se tornar Palavra celebrada através da Liturgia e da vida sacramental da Igreja, para poder, assim, motivar uma vida segundo a Palavra, através da experiência da comunhão, da caridade e da missão.[75]

a - Na liturgia e na oração

22. “Na liturgia, o rito e a Palavra estejam intimamente unidos”.[76] A Igreja aprendeu a descobrir e a acolher Deus, que fala de modo especial na oração litúrgica, para além de o fazer na oração pessoal e comunitária. A Sagrada Escritura é, com efeito, uma realidade litúrgica e profética: mais que um livro escrito, é uma proclamação e um testemunho que o Espírito Santo faz do acontecimento Cristo. Foi isso que levou a uma difusão do conhecimento e do amor das Escrituras. O caminho para realizar a letra e o espírito do Concílio Vaticano II sobre o uso da Palavra na liturgia é porém um caminho sempre em aberto, que exige um esforço qualitativo e quantitativo de renovação, exortando os fiéis nesse sentido e reflectindo com eles sobre algumas indicações propostas pelo Concílio.

A tal propósito, recorda-se o dado fundamental que “Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala, quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura”.[77] Assim, “é enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração litúrgica”.[78] Isso leva a prestar uma atenção privilegiada a toda a espécie de encontro com a Palavra na acção litúrgica: na Eucaristia (dominical), nos sacramentos, na pregação homilética, no ano litúrgico, na liturgia das horas, nos sacramentais, nas mais diversas formas da piedade popular, na catequese mistagógica.

O primeiro lugar pertence à Eucaristia, enquanto “mesa tanto da Palavra de Deus como do Corpo de Cristo” [79] intimamente unidos, nomeadamente no Dia do Senhor: “Ela é o lugar privilegiado onde a comunhão é constantemente anunciada e cultivada”.[80] Tenha-se presente que, para muitíssimos cristãos, a Missa do Domingo, que é o momento principal de encontro com a Palavra de Deus, continua a ser, ainda hoje, o único ponto de contacto com a Palavra de Deus. Daí deveria nascer uma verdadeira paixão pastoral para celebrar e viver com autenticidade e alegria o encontro com a Palavra na Eucaristia dominical.

Concretamente, dever-se-á dar a máxima atenção à liturgia da Palavra, antes de mais na Eucaristia, mas também em todos os outros sacramentos, com a proclamação clara e compreensível dos textos; com a homilia, que da Palavra se torna ressonância límpida e encorajadora, ajudando a interpretar os acontecimentos da vida e da história à luz da fé; com a oração dos fiéis, que seja resposta de louvor, de acção de graças e de pedido a Deus que nos falou. Uma específica atenção deve dar-se também ao Ordo Lectionum Missae [81] e à oração do Ofício Divino. Tornou-se hoje imprescindível reflectir sobre o modo de tornar pastoralmente mais adequados e, portanto, mais acessíveis aos fiéis, esses excelentes canais da Palavra de Deus.

b - Na evangelização e na catequese

23. Também o ministério da Palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese e toda a forma de instrução cristã, onde a homilia litúrgica deve ter um lugar privilegiado, salutarmente se alimenta e santamente se revigora com a Palavra da Escritura” .[82] João Paulo II afirmou que “a obra da evangelização e da catequese está a revitalizar-se precisamente graças à atenção dada à Palavra de Deus”.[83] É um dos frutos mais notáveis do Concílio Vaticano II. Há que avançar por essa estrada, alargá-la e melhorá-la, renovando certezas e oferecendo serviços. A Igreja, aliás, sabe que, recebendo em dom a Palavra de Deus como o seu maior tesouro, recebe também o que constitui o seu maior dever: passá-la a todos.[84] É bom recordar aqui, a título de exemplo, alguns aspectos do ministério da Palavra, sintetizado em primeiro anúncio e catequese, tanto no percurso do ano litúrgico, como no caminho da iniciação cristã e na formação permanente.[85]

A este respeito, devem ter-se presentes as formas de comunicação da Palavra e, ao mesmo tempo, as exigências sempre novas dos fiéis nas diferentes idades e condições espirituais, culturais e sociais, como indicam o Directório Geral da Catequese e os Directórios catequéticos das diversas Igrejas locais.[86] Neste particular contexto, há que prestar atenção à recta iluminação, purificação e valorização da religiosidade popular através da Palavra de Deus, onde ela muitas vezes se inspira. Valorizem-se de modo especial todas as mediações da Palavra presentes na Igreja e em parte já mencionadas: Leccionários, Liturgia das Horas, Catecismos, celebrações da Palavra, etc.

Tem um papel importante na evangelização o encontro directo com a Sagrada Escritura. Tal encontro é um objectivo primário – “a catequese, em concreto, deve ser uma autêntica introdução à 'Lectio Divina', ou seja, à leitura da Sagrada Escritura, feita 'segundo o Espírito' que habita na Igreja” [87]– , e é, ao mesmo tempo, um conteúdo central – a catequese “deve impregnar-se e permear-se do pensamento, do espírito e das atitudes bíblicas e evangélicas através de um contacto assíduo com os próprios textos” [88].

Pela sua relevância eminentemente cultural, deve valorizar-se o ensino da Bíblia na escola e, de modo especial, no ensino da religião. Uma função específica desempenha o Catecismo da Igreja Católica, enquanto instrumento válido e legítimo ao serviço da comunidade eclesial, como uma norma segura para o ensino da fé.[89] Não pretende ele substituir a catequese bíblica, mas integrá-la na mais completa visão da Igreja.

A Palavra de Deus deve ser comunicada a todos, também aos que não sabem ler e, em particular, deve poder usufruir dos numerosos recursos da comunicação hodierna. Por isso, um serviço eficaz da Palavra de Deus exige uma valorização competente, actualizada e criativa dos diversos meios da comunicação social.

Dadas as grandes mudanças culturais e sociais, torna-se necessária uma catequese que ajude a explicar as 'páginas difíceis' da Bíblia, no âmbito da história, da ciência e do problema moral, e indicar o caminho de solução para certas formas de representar Deus, o homem e a mulher e a acção moral, sobretudo no Antigo Testamento.

c - Na exegese e na teologia

24. “Por isso, o estudo das Sagradas Páginas há-de ser como alma da Sagrada Teologia” .[90] Não há dúvida que os frutos alcançados neste âmbito, depois do Concílio Vaticano II, são motivo para louvar o Senhor pela graça do seu Espírito de verdade. Por outro lado, tendo a Palavra de Deus posto a sua tenda no meio de nós (cf. Jo 1,14), não há dúvida que o mesmo Espírito nos impele a meditar nos novos itinerários que a mesma Palavra entende realizar entre os homens do nosso tempo, convidando-nos a colher expectativas e desafios que a humanidade actual põe à Palavra.

Expresso de forma extremamente exemplificadora, emerge hoje um quadro, cujos pontos relevantes são o empenho de exegetas e teólogos no estudo e na explicação das Escrituras segundo o sentido da Igreja, uma interpretação e proposta da Palavra da Bíblia no contexto da Tradição viva e vice-versa, uma valorização da herança dos Padres e um confronto com as indicações do Magistério, ajudando-o com lealdade e inteligência no cumprimento da sua missão.[91]

Neste âmbito, é útil chamar a atenção para as perspectivas, a seu tempo delineadas pela Optatam totius, a propósito do ensino da teologia e, por reflexo, da metodologia a empregar na formação teológica dos pastores. As perspectivas aí delineadas continuam, em grande parte, à espera de ser actuadas. E, todavia, a linha apresentada, precisamente a partir dos temas bíblicos, prospecta um itinerário que, no percurso da pesquisa e do ensinamento, pode garantir uma síntese adequada, tanto para os presbíteros como, por reflexo, para o povo de Deus. A recuperação dessa indicação conciliar constituiria um enriquecimento da própria Palavra de Deus, actualizada nas perspectivas do ensino das diferentes disciplinas teológicas e em constante dialéctica construtiva com o auditus culturae.[92]

Uma específica atenção merece a relação da Revelação de Deus com o pensamento e a vida do homem de hoje. Nessa óptica, se coloca o dever de reflectir, à luz da Palavra de Deus, sobre as tendências antropológicas actuais; sobre a relação entre razão e fé, que são “como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” ,[93] mediações da única verdade que vem de Deus; sobre o diálogo com as grandes religiões para a realizar, em nome de Deus, um mundo mais justo e pacificado.

Dos estudiosos a comunidade cristã espera que, com zelo e mediante “subsídios apropriados” , ajudem os ministros da Palavra divina a oferecer ao povo de Deus “o alimento das Escrituras, que ilumine a mente, fortaleça a vontade e inflame os corações dos homens no amor de Deus” .[94]

d - Na vida do crente

25. “Ignorar as Escrituras é ignorar Jesus Cristo” .[95] “É necessário que todos... mantenham um contacto constante com as Sagradas Escrituras, através da leitura espiritual e do estudo diligente” .[96]

Juntamente com o progresso catequético, o progresso espiritual constitui um dos aspectos mais belos e promissores da acção da Palavra de Deus no seu povo. Encontrar, rezar e viver a Palavra é a suprema vocação do cristão. “Dela já se servem em larga escala os indivíduos e as comunidades” , afirma João Paulo II.[97] Mas o número deve poder crescer e a qualidade da abordagem deve corresponder às finalidades da Palavra de acordo com o serviço da Igreja. Para uma genuína espiritualidade da Palavra, há que recordar que “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada da oração, para que possa realizar-se o colóquio entre Deus e o homem, pois, quando rezamos, falamos com Ele; escutamo-l'O, quando lemos os oráculos divinos”.[98] Confirma Santo Agostinho: “A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês a Sagrada Escritura, é Deus que fala contigo; quando rezas, és tu que falas com Deus” .[99] Isso leva à consideração de alguns aspectos que devem ser tidos como prioritários e preferenciais.

Antes de mais, a Palavra de Deus deve ser encontrada com o espírito do pobre, tanto interiormente como também exteriormente, pois isso corresponde plenamente ao Verbo de Deus, “Nosso Senhor Jesus Cristo, que era rico, fez-Se pobre por vossa causa, para vos enriquecer pela sua pobreza” (2Cor 8,9); um modo de ser, portanto, baseado no mesmo modo como Jesus escutava a Palavra do Pai e a anunciava a nós, com total desapego das coisas, e sempre pronto a evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18). “É motivo de alegria ver a Bíblia nas mãos de gente humilde e pobre, que pode dar à sua interpretação e actualização uma luz mais penetrante, do ponto de vista espiritual e existencial, do que a que vem de uma ciência segura de si mesma” .[100]

Deve encorajar-se vivamente, e antes de mais, a prática da Bíblia que remonta às origens do cristianismo e acompanhou a Igreja ao longo da sua história. Tradicionalmente chama-se Lectio Divina, com os seus diversos momentos (lectio, meditatio, oratio, contemplatio).[101] É de casa na experiência monástica, mas hoje o Espírito, através do Magistério, propõe-na ao clero,[102] às comunidades paroquiais, aos movimentos eclesiais, às famílias e aos jovens.[103] Escreve João Paulo II: “É necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da Lectio Divina, que permite colher no texto bíblico a Palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência” [104]; “mediante a utilização também dos novos métodos, cuidadosamente ponderados, ao passo dos tempos” .[105] Em particular, o Santo Padre Bento XVI convida os jovens “a adquirir familiaridade com a Bíblia, a tê-la ao alcance da mão, para ser uma bússola a indicar a estrada a seguir” ;[106] a a todos recorda: “A leitura assídua da Sagrada Escritura, acompanhada da oração, realiza aquele íntimo colóquio, em que, lendo, se escuta Deus que fala e, rezando, responde-se a Ele com confiante abertura do coração” .[107]

A novidade da Lectio no povo de Deus requer uma formação iluminada, paciente e contínua, entre os presbíteros, as pessoas de vida consagrada e os leigos, de modo a conseguir-se uma partilha das experiências de Deus produzidas pela Palavra escutada (collatio).[108] A Palavra de Deus deve ser a primeira fonte que inspira a vida espiritual da comunidade nas diversas práticas, como exercícios espirituais, retiros, devoções e experiências religiosas. Um objectivo importante (e critério de autenticidade) é o de amadurecer cada um para uma leitura pessoal da Palavra em óptica sapiencial, que o prepare para um discernimento cristão da realidade, da capacidade de dar razão da própria esperança (cf. 1 Pe 3,15) e do testemunho da santidade. São Cipriano, recolhendo um pensamento partilhado pelos Padres, recorda: “Entrega-te com assiduidade à oração e à Lectio Divina. Quando rezas, falas com Deus; quando lês, é Deus que fala contigo” .[109]

“A vossa Palavra é farol para os meus passos e luz para os meus caminhos” (Sal 119,105). O Senhor, que ama a vida e entende com a sua Palavra iluminar, guiar e confortar toda a vida dos crentes em todas as circunstâncias, no trabalho, no tempo livre, no sofrimento, nos deveres familiares e sociais e em todas as vicissitudes alegres ou tristes, de modo que todos possam discernir todas as coisas e conservar o que elas têm de bom (cf. 1Tess 5,21), descobrindo assim a vontade de Deus, e pondo-a em prática (cf. Mt 7,21).

PERGUNTAS

Capítulo II

1. A Palavra de Deus na vida da Igreja

Que importância se dá à Palavra de Deus na vida das nossas comunidades e dos fiéis? De que modo a Palavra de Deus se torna alimento dos cristãos? Há o risco de reduzir o cristianismo a uma religião do livro? No Domingo, como se venera a Palavra de Deus e que familiaridade se tem com ela na vida pessoal e na vida comunitária dos fiéis? Nos dias feriais? Nos tempos fortes do ano litúrgico?

2. A Palavra de Deus na formação do povo de Deus

Que iniciativas se tomam para transmitir às nossas comunidades e a cada fiel a doutrina integral e completa sobre a Palavra de Deus? Os futuros presbíteros, as pessoas consagradas, os responsáveis de serviços na comunidade (catequistas, etc.) são formados de maneira adequada e com constante actualização para a animação bíblica da pastoral? Existem projectos de formação permanente dos leigos?

3. Palavra de Deus, liturgia e oração

Como se abeiram os fiéis da Sagrada Escritura na oração litúrgica e na pessoal? Que ligação se colhe entre liturgia da Palavra e liturgia eucarística, entre a Palavra celebrada na Eucaristia e a vida quotidiana dos cristãos? A homilia é ressonância genuína da Palavra de Deus? Que necessidades exprime? O sacramento da reconciliação é acompanhado da escuta da Palavra de Deus? A Liturgia das Horas é celebrada como escuta e diálogo com a Palavra de Deus? Estende-se a sua prática também ao povo de Deus? Pode-se dizer que o povo de Deus tem suficientes possibilidade de contacto com a Bíblia?

4. Palavra de Deus, evangelização e catequese

À luz do Concílio Vaticano II e do Magistério catequético da Igreja, que aspectos positivos e problemáticos se notam na relação entre Palavra de Deus e catequese? Como é tratada a Palavra de Deus nas diversas formas de catequese (iniciação e formação permanente)? Dá-se à Palavra de Deus escrita suficiente atenção e estudo nas comunidades? Se sim, como se o realiza? As diferentes categorias de pessoas (crianças, adolescentes, jovens, adultos) como são iniciadas na Bíblia? Existem cursos de introdução à Sagrada Escritura?

5. Palavra de Deus, exegese e teologia

A Palavra de Deus é a alma do trabalho exegético e teológico? Respeita-se adequadamente a sua natureza de Palavra revelada? Uma pré-compreensão de fé anima e apoia a pesquisa científica? Qual é a metodologia habitual de aproximação ao texto? Qual o papel do dado bíblico na elaboração teológica? Existe sensibilidade para a pastoral bíblica na comunidade?

6. Palavra de Deus e vida do crente

Qual é o impacto da Sagrada Escritura na vida espiritual do povo de Deus? No clero? Nas pessoas consagradas? Nos fiéis leigos? Nota-se a atitude de pobreza e confiança de Maria do Magnificat? Porque é que a busca dos bens materiais estorva a escuta da Palavra de Deus? A Palavra de Deus da Eucaristia e demais celebrações litúrgicas revela-se como momento forte ou fraco da comunicação de fé? Porque é que diversos cristãos se mostram indiferentes e frios em relação à Bíblia? A Lectio Divina é praticada? Em que modalidades? Que factores a favorecem e quais a dificultam?

CAPÍTULO III

A Palavra de Deus na missão da Igreja

“Foi a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem onde estava escrito: 'O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor'. Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: 'Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,16-21).

A missão da Igreja é proclamar Cristo, a Palavra de Deus feita carne

26. “Alimentar-nos da Palavra, para ser 'servos da Palavra' na tarefa da evangelização: esta é, certamente, uma prioridade para a Igreja no início do novo milénio” .[110] Isso exige que se frequente a escola do Mestre, notando que a sua Palavra tem como centro o anúncio do Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15) com palavras e obras, com o testemunho da vida e o ensino. O Reino de Deus, que a Palavra de Deus faz germinar, é Reino de verdade e de justiça, de amor e de paz, oferecido a todos os homens. Pregando a Palavra, a Igreja participa na construção do Reino de Deus, ilumina a sua dinâmica e propõe-no como salvação do mundo. Anunciar o Reino é o Evangelho que deve ser pregado até aos confins da terra (cf. Mt 28,19; Mc 16,15). Esse anúncio e a sua escuta são a prova da autenticidade da fé.

O “Ai de mim, se não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) de São Paulo ressoa hoje com particular urgência, tornando-se para todos os cristãos, não uma simples informação, mas vocação ao serviço do Evangelho para o mundo. Pois, como diz Jesus, “a seara é grande” (Mt 9,37) e diversificada: são tantos os que nunca ouviram o Evangelho, sobretudo nos continentes de África e Ásia; são também tantos os que o esqueceram, e também tantos os que esperam o seu anúncio.

Na verdade, não faltaram nem faltam dificuldades que obstruem o caminho do povo de Deus na escuta do seu Senhor. Por razões inclusive económicas, sente-se em muitas regiões e a falta mesmo material do Texto bíblico, da sua tradução e difusão. E há também o grande obstáculo das seitas para uma correcta interpretação. Levar a Palavra é uma missão importante, que implica um sentir profundo e convicto “cum Ecclesia” .

Um dos primeiros requisitos é a confiança na força transformadora da Palavra no coração de quem a escuta. Com efeito, “a Palavra de Deus é viva e realizadora (...), é capaz de distinguir as intenções e os pensamentos do coração” (Heb 4,12). Um segundo requisito, hoje particularmente sentido e credível, é anunciar e testemunhar a Palavra de Deus como fonte de conversão, de justiça, de esperança, de fraternidade e de paz. Um terceiro requisito é a franqueza, a coragem, o espírito de pobreza, a humildade, a coerência, a cordialidade de quem serve a Palavra.

A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI conserva ainda a sua actualidade para uma pedagogia do anúncio, enquanto que a Encíclica Deus caritas est do Santo Padre Bento XVI põe em grande relevo como a caridade está estreitamente ligada ao anúncio da Palavra de Deus e à celebração dos sacramentos.[111] O facto de receber a Palavra de Deus, que é amor, leva a que não seja possível anunciar a Palavra sem uma prática de amor, no exercício da justiça e da caridade. Nessa óptica da missão evangelizadora da Palavra de Deus, acena-se aqui, apenas resumidamente, a alguns objectivos e tarefas, a que se deve prestar atenção, e que se consideram de particular relevância.[112]

Escreve Santo Agostinho: “É fundamental compreender que a plenitude da Lei, aliás como de todas as Escrituras divinas, é o amor: o amor do Ser de que devemos beneficiar e do ser que é chamado a beneficiar dela connosco. É para dar-nos a conhecer esse amor e torná-lo possível, que a divina Providência criou, para a nossa salvação, toda a economia temporal... Quem, portanto, julga ter compreendido as Escrituras ou, ao menos, uma sua parte, sem empenhar-se em construir, através da inteligência das mesmas, esse dúplice amor de Deus e do próximo, mostra não as ter ainda compreendido” .[113]

A Palavra de Deus deve estar à disposição de todos em cada tempo

27. A Igreja afirma a sua liberdade de anunciar a Palavra de Deus com a franqueza dos Apóstolos (cf. Act 4,13; 28,31) e, ao mesmo tempo, considera “necessário que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” .[114] É um requisito para a missão e, hoje, é também um conteúdo fundamental da missão. Apesar da muita insistência, há que admitir que a maioria dos cristãos não tem contacto efectivo e pessoal com a Escritura, e os que o têm sentem grandes incertezas teológicas e metodológicas a nível da comunicação. O encontro com a Bíblia corre o risco de não ser um facto de Igreja, de comunhão, mas de estar exposto ao subjectivismo e à arbitrariedade, ou de ser reduzido a objecto de devoção privada, como tantas outras na Igreja. Torna-se indispensável uma promoção pastoral robusta e credível da Palavra.

Isso implica o recurso a iniciativas específicas, como por exemplo, a valorização plena da Bíblia nos projectos pastorais e, ao mesmo tempo, um projecto de pastoral bíblica em cada diocese, sob a guia do Bispo, utilizando convenientemente a Bíblia, que já está presente nas grandes acções da Igreja, e oferecendo oportunas formas de encontro directo, nomeadamente com percursos de lectio divina para os jovens e para os adultos. Ao fazê-lo, procurar-se-á que a comunhão entre presbíteros e leigos e, portanto, entre paróquias, comunidades de vida consagrada e movimentos eclesiais se baseie e se manifeste na Palavra de Deus.

É útil para o efeito um serviço específico de apostolado bíblico a nível diocesano, metropolitano ou nacional, que difunda a prática bíblica com oportunos subsídios,[115] suscite o movimento bíblico entre os leigos, cuide da formação dos animadores dos grupos de escuta ou do Evangelho, com particular atenção aos jovens e propondo itinerários de fé com base na Palavra de Deus inclusive aos imigrantes e a quantos vivem em procura.

Recorde-se que é desde 1968 que existe e actua a Federação Bíblica Católica mundial, instituída por Paulo VI, ao serviço das orientações do Concílio Vaticano II sobre a Palavra de Deus. São membros dessa Associação quase todas as Conferências Episcopais e, por isso, ela tem uma ramificação de aderentes em todos os continentes. O seu objectivo é difundir o texto da Bíblia nas diversas línguas e, ao mesmo tempo, levar o povo simples a conhecer e a viver o que a mesma ensina, através boas traduções, que, sob o cuidado pastoral dos Bispos, se possam utilizar na liturgia. Um outro dever da comunidade é a difusão da Bíblia a preços acessíveis.

Além disso, deve dar-se com sapiente equilíbrio largo espaço aos métodos e às novas formas de linguagem e comunicação na transmissão da Palavra de Deus, como são rádio, televisão, teatro, cinema, música e canções, inclusive os novos media, como CD, DVD, internet, etc.[116]

Neste processo de levar ao povo a Palavra de Deus, um papel específico cabe às pessoas de vida consagrada. Como sublinha o Vaticano II, “tenham quotidianamente entre mãos a Sagrada Escritura, para que, na leitura e na meditação dos Livros Sagrados, aprendam 'a eminente ciência de Jesus Cristo'(Fil 3,8)” [117]e encontrem um renovado impulso na sua tarefa de educar e evangelizar sobretudo os pobres, os pequeninos e os últimos. Para os Padres da Igreja, o texto bíblico deve tornar-se objecto de um quotidiano 'ruminar'. Quando o homem começa a ler as divinas Escrituras – pensava Santo Ambrósio – Deus volta a passear com ele no paraíso terrestre.[118] E João Paulo II afirmava: “A Palavra de Deus é a primeira fonte de toda a vida espiritual cristã. Ela sustenta um relacionamento pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade salvífica e santificadora. É por isso que a lectio divina, desde o nascimento dos Institutos de vida consagrada e, de modo particular, do monaquismo, foi tida na mais alta consideração. Por meio dela, a Palavra de Deus é transferida na vida, projectando sobre esta a luz da sapiência, que é dom do Espírito”.

A Palavra de Deus, graça de comunhão entre os cristãos

28. Este aspecto deve ser tido como um dos maiores objectivos da pastoral da Igreja. Os dois aspectos essenciais que unem todos os fiéis em Cristo são, de facto, constituídos pela Palavra de Deus e pelo Baptismo. É a partir destes dados de facto que o caminho ecuménico tem necessidade de prosseguir, enfrentando os desafios com que se depara, em vista daquela unidade plena que só num regresso às fontes da Palavra, interpretada à luz da Tradição eclesial, pode garantir um encontro total com Cristo e com os irmãos.[120] O discurso de despedida de Jesus no Cenáculo realça fortemente como esta unidade consista no dar um comum testemunho da Palavra do Pai oferecida pelo Senhor (cf. Jo 17,8).

A escuta da Palavra de Deus possui, portanto, uma dimensão ecuménica que deve ser sempre cuidada. É com satisfação que se nota como a Bíblia seja hoje o maior ponto de encontro para a oração e o diálogo entre as Igrejas e as comunidades eclesiais. Acolhendo as indicações do Concílio Vaticano II, colabora-se na difusão do Texto Sagrado com traduções ecuménicas.[121] Depois do Concílio, o Magistério da Igreja deu nesse sentido notáveis contributos.[122] Da sua atenta leitura e do confronto com as situações particulares podem esperar-se indicações claras e impulsos no caminho da unidade. Afirma o Papa Bento XVI: “A escuta da Palavra de Deus é prioritária para o nosso compromisso ecuménico. Com efeito, não somos nós que realizamos ou organizamos a unidade da Igreja. A Igreja não se faz a si mesma e não vive por si própria, mas da Palavra criadora que provém da boca de Deus. Ouvir a Palavra de Deus em conjunto; praticar a lectio divina da Bíblia, ou seja, a leitura ligada à oração; deixar-se surpreender pela novidade da Palavra de Deus, que nunca envelhece e jamais se esgota; superar a nossa surdez por aquelas palavras que não concordam com os nossos preconceitos e as nossas opiniões; ouvir e estudar, na comunhão dos fiéis de todos os tempos; tudo isto constitui um caminho a percorrer para alcançar a unidade na fé, como resposta à escuta da Palavra”.[123]

A Palavra de Deus, luz para o diálogo inter-religioso

29. Todo este é um campo que, embora presente na Igreja em toda a sua história, se apresenta hoje com exigências novas e tarefas inéditas. Cabe à investigação teológica aprofundar essa delicada relação e daí tirar as devidas consequências pastorais. Tendo presente quanto até hoje foi dito pelo Magistério da Igreja,[124] recordam-se os seguintes pontos em ordem a uma reflexão e avaliação:

a - Com o povo judeu

30. Uma peculiar atenção deve ser dada ao povo judeu. Cristãos e Judeus são ambos filhos de Abraão, radicados na mesma aliança, pois Deus, fiel às suas promessas, não revogou a primeira aliança (cf. Rom 9-11). Confirma João Paulo II: “Este povo é enviado e guiado por Deus, Criador do céu e da terra. A sua existência não é, portanto, um simples facto de natureza ou de cultura, no sentido em que, através da cultura, o homem utiliza os recursos da própria natureza. Trata-se, pelo contrário, de um facto sobrenatural. Este povo persevera, não obstante tudo, porque é o povo da Aliança e porque, apesar da infidelidade dos homens, o Senhor é fiel à sua Aliança” .[125] Cristãos e Judeus partilham grande parte do cânon bíblico, a que os cristãos chamam Antigo Testamento. A esse respeito, existe hoje um importante documento da Pontifícia Comissão Bíblica – O povo judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia cristã [126] – que leva a reflectir sobre a estreita ligação de fé, já assinalada na Dei Verbum.[127] Dois aspectos devem ser particularmente considerados: o contributo original da compreensão judaica da Bíblia e a superação de toda a possível forma de anti-semitismo e anti-judaísmo.

b - Com outras religiões

31. A Igreja é mandada a levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16,15). Ao fazê-lo, ela encontra o grande número de aderentes a outras religiões, com os seus livros sagrados e a sua maneira de entender a Palavra de Deus; depara em toda a parte com pessoas que vivem numa situação de procura ou simplesmente numa inconsciente espera da 'boa nova'. Com todos a Igreja se sente devedora da Palavra que salva (cf. Rom 1,14).

Antes de mais, há que recordar que o cristianismo não é religião do livro, mas da Palavra de Deus encarnada no Senhor Jesus. Portanto, no confronto da Bíblia com os Textos sagrados das outras religiões, há que ter atenção para não cair no sincretismo, em aproximações superficiais e em deformações da verdade. Uma maior atenção deve ser prestada à pureza da Palavra de Deus, autenticamente interpretada pelo Magistério, diante das numerosas seitas que se servem da Bíblia para outros fins e com métodos estranhos à Igreja.

Em perspectiva positiva, dar-se-á atenção ao conhecimento das religiões não cristãs e das respectivas culturas, ao discernimento das sementes do Verbo nelas presentes. É importante lembrar que a escuta de Deus deve levar a superar toda a forma de violência, para que essa escuta se torne activa no coração e nas obras em ordem à promoção da justiça e da paz.[128]

A Palavra de Deus, fermento das culturas modernas

32. O encontro da Palavra de Deus dá-se também com as diversas culturas (sistemas de pensamento, ordem ética, filosofia de vida, etc.), muitas vezes dominadas por influências económicas e tecnológicas de inspiração secularista e potenciadas pelo largo serviço dos mass-media, donde o nome que lhes dá de 'Bíblias laicas'. O diálogo com elas tornou-se mais do que nunca inevitável, talvez áspero, mas também rico de potencialidades para o anúncio, enquanto rico de pedidos de sentido, que encontram no Senhor uma proposta libertadora.

Isso significa que a Palavra de Deus pede para entrar como fermento num mundo pluralista e secularizado, nos 'areópagos modernos' (cf. At 17,22) da arte, da ciência, da política e da comunicação, levando “a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas” [129], para as purificar, elevar e fazer delas instrumentos do Reino de Deus.

Isto exige uma catequese de Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e Vida” (Jo 14,6), feita não com superficialidade, mas com uma adequada preparação para o confronto com posições alheias, de modo a transparecer a identidade do mistério cristão e a sua benéfica eficácia para todas as pessoas. Num tal contexto, deve dar-se especial atenção à busca da chamada 'história dos efeitos'(Wirkungsgeschichte) da Bíblia na cultura e no ethos comum, que faz com que, justamente, a chamem e apreciem como o 'grande código', sobretudo no Ocidente.

A Palavra de Deus e a história dos homens

33. A Igreja, na sua peregrinante caminhada para o Senhor, também é consciente de que a Palavra de Deus deve ser lida nos acontecimentos e nos sinais dos tempos, com que Deus Se manifesta na história. Diz o Concílio Vaticano II: “A Igreja tem incessantemente o dever de perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar à luz do Evangelho, de tal sorte que possa responder, de um modo adequado a cada geração, às eternas interrogações dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e sobre as suas relações recíprocas” .[130] Mergulhada nas vicissitudes humanas, a Igreja deve saber “descobrir nos acontecimentos, nas exigências e nos desejos... quais sejam os verdadeiros sinais da presença ou dos desígnios de Deus” [131]e, assim, ajudar a humanidade a encontrar o Senhor da história e da vida.

Desta maneira, a Palavra que Jesus semeou como semente do Reino, faz o seu percurso na história dos homens (cf. 2 Tes 3,1) e, quando Jesus voltar na glória, ressoará como convite a participar plenamente na alegria do Reino (cf. Mt 25,24). A esta promessa certa, a Igreja responde com uma ardente prece: “Maranàtha” (1 Cor 16,22), “Vem, Senhor Jesus” (Apoc 22,20).

PERGUNTAS

Capítulo III

1. Anunciar hoje a Palavra de Deus

Olhando para a experiência pastoral, o que é que favorece e o que é que impede a escuta da Palavra de Deus? Podem uma certa inquietude interior, o estímulo de outros cristãos...favorecer a necessidade de renovar a fé; podem ser-lhe de obstáculo o secularismo, a proliferação de mensagens, os estilos de vida alternativos à visão cristã...? Que desafios deve hoje enfrentar o anúncio da Palavra de Deus?

2. Largo acesso à Escritura

Como corresponde DV 22 – “é necessário que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” – à realidade dos factos? Existem estatísticas, mesmo aproximativas, sobre isso? Pode notar-se um crescimento de escuta pessoal e comunitária da Bíblia?

3. A difusão da Palavra de Deus

Como é organizado o Apostolato bíblico na comunidade diocesana? Existe um programa diocesano? Há animadores preparados? É conhecida a Federação Bíblica Católica? Que formas de encontro da Palavra de Deus (grupos bíblicos ou de escuta, cursos bíblicos, dia da Bíblia, Lectio Divina) se propõem, e quais as mais frequentadas pelos cristãos? Existem traduções completas ou parciais da Bíblia? Como é considerada a Bíblia na família? São propostos itinerários bíblicos para as várias idades (crianças, adolescentes, jovens, adultos)? Que uso se faz dos meios de comunicação social? Que elementos se valorizam?

4. A Palavra de Deus no diálogo ecuménico

O anúncio da Palavra ao mundo de hoje exige um testemunho coerente de vida. Pode-se notá-lo nos cristãos de hoje? Como promovê-lo? No diálogo ecuménico, como assumiram as Igrejas particulares os principais conteúdos da Dei Verbum? Existe um intercâmbio ecuménico entre as Igrejas irmãs sobre a Escritura? Que papel dão essas Igrejas à Palavra de Deus? Em que formas a encontram? Há possibilidade de colaborar com as United Bible Societes (UBS)? Há conflitos no uso da Bíblia?

5. A Palavra de Deus no diálogo com o povo judeu

O diálogo com a religião judaica é preferencial? Que formas de encontro sobre a Bíblia se desejam? Instrumentaliza-se o texto bíblico para fomentar comportamentos anti-semitas?

6. A Palavra de Deus no diálogo inter-religioso e inter-cultural

Há experiências de diálogo na base da Escritura cristã com os que possuem livros sagrados próprios? Como encontram a Palavra de Deus os que não crêem na inspiração da Sagrada Escritura? Há uma Palavra de Deus também para os que não acreditam em Deus? A Bíblia é lida também na sua qualidade de 'grande código', portador de tantas riquezas universais? Há experiências de diálogo inter-cultural no que se refere à Bíblia? Que fazer para apoiar a comunidade cristã perante as seitas?

CONCLUSÃO

“A Palavra de Cristo habite em vós com abundância, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros, com toda a sabedoria. E, com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai” (Col 3, 16-17).

A escuta da Palavra de Deus como vida do crente

34. Elemento fundamental para o encontro do homem com Deus é a escuta religiosa da Palavra. Vive-se a vida segundo o Espírito em proporção da capacidade de dar espaço à Palavra, de fazer nascer o Verbo de Deus no coração do homem. Com efeito, não é o homem que pode penetrar na Palavra de Deus, mas é só esta que o pode conquistar e converter, levando-o a descobrir as suas riquezas e os seus segredos, e abrindo-lhe horizontes de sentido, propostas de liberdade e de pleno amadurecimento humano (cf. Ef 4,13). O conhecimento da Sagrada Escritura é obra de um carisma ecclesial, que é posto nas mãos dos crentes abertos ao Espírito.

Diz São Máximo Confessor: “As palavras de Deus, se simplesmente pronunciadas, não são ouvidas, porque, como voz, não têm a prática dos que as pronunciam. Se porém são pronunciadas juntamente com a prática dos mandamentos, têm o poder, com essa voz, de afastar os demónios e levar os homens a construir o templo divino do coração com o progresso nas obras de justiça” .[132] É questão de abandonar-se ao louvor silencioso do coração, num clima de simplicidade e de oração adoradora, como Maria, a Virgem da escuta, porque todas as palavras de Deus se resumem e devem ser vividas no amor (cf. Dt 6,5; Jo 13,34-35). Então, o crente, feito “discípulo” , poderá penetrar na “Palavra excelente de Deus” (Heb 6,5), vivendo-a na comunidade eclesial, e anunciá-la aos de perto e aos de longe, tornando actual o convite de Jesus, Palavra encarnada: “o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).

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NOTAS

[1] Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 2.

[2]Rupertus Abbas Tuitiensis, De operibus Spiritus Sancti, I, 6: SC 131, 72-74.

[3]Cf. Leo XIII, Litt. Enc. Providentissimus Deus (18 novembris 1893): DS 1952 (3293); Benedictus XV, Litt. Enc. Spiritus Paraclitus (15 septembris 1920): AAS 12(1920), 385-422; Pius XII, Litt. Enc. Divino afflante Spiritu (30 septembris 1943): AAS 35(1943), 297-325.

[4]Cf. Synodus Episcoporum, Relatio finalis Synodi episcoporum Exeunte coetu secundo: Ecclesia sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi (7 decembris 1985): Enchiridion del Sinodo dei Vescovi, 1, Bologna 2005, 2733-2736.

[5]Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16 septembris 2005): AAS 97 (2005), 957. Cf. Paulus VI, Epistula Apostolica Summi Dei Verbum (4 novembris 1963): AAS 55 (1963), 979-995; Ioannes Paulus II, Audiência Geral (22 maii 1985): L'Osservatore Romano edição em português (26 maii 1985), 20; A interpretação autentica da Sagrada Escritura (23 aprilis 1993): L'Osservatore Romano edição em português (2 maii 1993), 6-7; Benedictus XVI, Angelus (6 novembris 2005): L'Osservatore Romano edição em português (12 novembris 2005), 1.

[6]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 21.

[7]S. Hieronymus, Commentarius in Ecclesiasten, 313: CCL 72, 278.

[8]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 22.

[9]Cf. Pontificia Commissio Biblica, Le peuple juif et ses Saintes Écritures dans la Bible chrétienne (24 maii 2001): Enchiridion Vaticanum 20, Bologna 2004, pp. 507-835.

[10]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 2.

[11]Ibidem.

[12]Ibidem.

[13]Cf. ibidem.

[14]Missale Romanum, Editio typica tertia, Typis Vaticanis, Città del Vaticano 2002, Institutio generalis, n. 368.

[15]Paulus VI, Voti e norme per il IV Congresso Nazionale Francese dell'insegnamento religioso (1-3 aprilis 1964): L'Osservatore Romano (4 aprilis 1964), 1.

[16]S. Gregorius Magnus, Moralia, 20,63: CCL 143A,1050.

[17] Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 3.

[18] Ephraem, Hymni de paradiso, V, 1-2: SC 137, 71-72.

[19] Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 4.

[20]S. Irenaeus, Adversus Haereses IV, 34, 1: SC 100, 847.

[21]Origenes, In Ioannem V, 5-6: SC 120, 380-384.

[22]Cf. S. Bernardus, Super Missus est, Homilia IV, 11: PL 183, 86.

[23]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 3.

[24] Cf. ibidem, 24.

[25] Cf. ibidem, 4.

[26]Ibidem, 5.

[27]Ibidem.

[28] Cf. ibidem, 2; 5.

[29]Ibidem, 2.

[30]Ibidem, 21.

[31] Isaac de Stella, Serm. 51: PL 194, 1862-1863.1865.

[32] Cf. S. Ambrosius, Evang. secundum Lucam 2, 19: CCL 14, 39.

[33]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 7.

[34] Cf. ibidem, 26.

[35]Ibidem, 8; cf. 21.

[36] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 825.

[37]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 8.

[38]Ibidem, 7.

[39]Ibidem, 10.

[40] Ibidem, 9; cf. Conc. Œcum. Trident.: Decretum de libris sacris et de traditionibus recipiendis: DS 1501.

[41]Ibidem, 10.

[42]Ibidem, 8.

[43]Ibidem, 21.

[44]Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 120.

[45]Cf. J. Ratzinger, Un tentativo circa il problema del concetto di tradizione: K. Rahner BJ. Ratzinger, Rivelazione e Tradizione, Brescia 2006, 27-73.

[46]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 9; cf. ibidem 24.

[47]Ibidem, 21.

[48]Ibidem, 11.

[49]Cf. Pontificia Commissio Biblica, L'interprétation de la Bible dans l'Église (15 aprilis 1993), cap. I, C.D.: Enchiridion Vaticanum 13, Bologna 1995, pp. 1555-1733.

[50]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, cc. 3-6.

[51]Ioannes Paulus II, Litt. Enc.Fides et ratio (14 septembris 1998), 13-15: AAS 91(1999), 15-18.

[52]Cf. Pontificia Commissio Biblica, L'interprétation de la Bible dans l'Église (15 aprilis 1993), cap. I, F: Enchiridion Vaticanum 13, Bologna 1995, pp. 1628-1634.

[53]Cf. ibidem, cap. IV, A.B., pp. 1703-1715.

[54]Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 117.

[55]Pontificia Commissio Biblica, L'interprétation de la Bible dans l'Église(15 aprilis 1993) cap .I: Enchiridion Vaticanum 13, Bologna 1995, pp. 1568-1634.

[56]Conc.Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 12; cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 109-114.

[57]Benedictus XVI, Alocução aos Bispos da Suíça (7 novembris 2006): L'Osservatore Romano edição em português (18 novembris 2006), 5.

[58]Missale Romanum, Ordo lectionum Missae: Editio typica altera, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 1981: Praenotanda, n. 8.

[59]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 15-16.

[60]Cf. S. Augustinus, Quaestiones in Heptateucum, 2,73: PL 34, 623; Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 16.

[61]S. Gregorius Magnus, In Ezechielem, I, 6,15: CCL 142, 76.

[62]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 18-19; Ioannes Paulus II, Audiência Geral (22 maii 1985): L'Osservatore Romano edição em português (26 maii 1985), 20.

[63]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 1.

[64]Ibidem, 21.

[65]S. Gregorius Magnus, Registrum Epistolarum V, 46, 35: CCL CXL, 339.

[66]Cf.Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 21.

[67]Ibidem.

[68]Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 115-119.

[69]Cf. Guigus II Prior Carthusiae, Scala claustralium sive tractatus de modo orandi: PL 184, 475-484.

[70]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 12.

[71]Ibidem, 23.

[72]Missale Romanum, Ordo Lectionum Missae. Editio typica altera: Praenotanda, 9.

[73]PetrusDamascenus, Liber II, vol. III, 159: La Filocalia, vol. 31, Torino 1985, p. 253.

[74]Conc.Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 21.

[75]Cf. Congregatio Pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15 augusti 1997), 47: Enchiridion Vaticanum 16, Bologna 1999, pp. 663-665.

[76]Conc. Œcum. Vat. II, Const. de Sacra Liturgia: Sacrosanctum Concilium, 35.

[77]Ibidem, 7.

[78]Ibidem, 24.

[79]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 21.

[80]Ioannes Paulus II, Litt. Ap. Novo Millennio Ineunte (6 Ianuarii 2001), 36: AAS 93 (2001), 291.

[81]Cf. Missale Romanum, Ordo Lectionum Missae: Editio typica altera: Praenotanda.

[82]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 24.

[83] Ioannes Paulus II, Litt. Ap. Novo Millennio Ineunte (6 Ianuarii 2001), 39: AAS 93 (2001), 293.

[84]Cf. CIC can. 762.

[85]Cf. Congregatio Pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15 augusti 1997), pars I, c.II: Enchiridion Vaticanum 16, Bologna 1999, pp. 684-708.

[86]Tenha-se presente, neste ponto, a atenção dada à relação entre os exercícios devocionais e a Palavra de Deus no Directório sobre a piedade popular e a liturgia. Princípios e orientações(9 aprilis 2002)a Congregatione de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 2002, nn.87-89.

[87]Congregatiopro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15 augusti 1997), 127: Enchiridion Vaticanum 16, Bologna 1999, p. 794.

[88]Ibidem.

[89]Ioannes PaulusII, Const. Apost. Fidei Depositum (11 octobris 1992) 4: AAS 86 (1994), 117.

[90]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 24; cf. LeoXIII, Litt. Enc. Providentissimus Deus (18 novembris 1893), Pars II, sub fine: ASS 26(1893-94), 269-292; Benedictus XV, Litt. Enc. Spiritus Paraclitus (15 septembris 1920), Pars III: AAS 12(1920), 385-422.

[91]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 12; Decretum de activitate missionali Ecclesiae Ad Gentes, 22.

[92]Cf.Conc. Œcum. Vat. II, Decretum de Institutione sacerdotali Optatam Totius, 16; CIC can. 252; CCEO can. 350

[93]Ioannes PaulusII, Litt. Enc. Fides et ratio (14 septembris 1998), Proœmium: AAS 91 (1999), 5.

[94]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 23.

[95]S. Hieronymus, Comm. in Is.; Prol.: PL 24,17.

[96]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 25.

[97]Ioannes Paulus II, Litt. Ap. Novo Millennio Ineunte (6 Ianuarii 2001), 39: AAS 93 (2001), 293.

[98]Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 25.

[99]S. Augustinus, Enarrat. in Ps 85,7: CCL 39, 1177.

[100]Pontificia Commissio Biblica, L'interprétation de la Bible dans l'Église (15 aprilis 1993), IV, C.3: Enchiridion Vaticanum 13, Bologna 1995, p. 1725.

[101]Cf. Guigus II Prior Carthusiae, Scala claustralium sive tractatus de modo orandi: PL 184, 475-484.

[102]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Decretum de Institutione SacerdotaliOptatam Totius, 4; Ioannes Paulus II,Adhort. Ap. Post-syn. Pastores Dabo Vobis (25 martii 1992), 47: AAS 84 (1992), 740-742.

[103]Cf. Benedictus XVI, Incontro con i giovani romani (6 aprilis 2006): L'Osservatore Romano (7 aprilis 2006), 5; Messaggio per la Giornata Mondiale della Gioventù (22 februarii 2006): L'Osservatore Romano (27-28 februarii 2006), p. 5.

[104]Ioannes Paulus II, Litt. Ap. Novo Millennio Ineunte (6 ianuarii 2001), 39: AAS 93 (2001), 293.

[105]Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16 septembris 2005): AAS 97 (2005), 957.

[106]Benedictus XVI, Mensagem para a XXI Jornada Mundial da Juventude (22 februarii 2006): L'Osservatore Romano edição em português (4 maii 2006), 6.

[107]Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16 septembris 2005): AAS 97 (2005), 957.

[108]Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Ap. Post-syn. Vita Consecrata (25 martii 1996), 94: AAS 88 (1996), 469-470.

[109]S. Cyprianus, Ad Donatum, 15: CCL IIIA, 12.

[110]Ioannes Paulus II, Litt. Ap. Novo Millennio Ineunte (6 ianuarii 2001), 40: AAS 93 (2001), 294.

[111]Cf. Benedictus XVI, Litt. Enc. Deus caritas est (25 decembris 2005): AAS 98 (2006), 217-252.

[112]Cf. ibidem, 20-25: AAS 98 (2006), 233-237.

[113]S. Augustinus, De doctrina Christiana, I, XXXV, 39; XXXVI,40: PL 34, 34.

[114]Conc.Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 22; cf. CIC can. 825; CCEO can. 654 e 662 '1.

[115]Cf. ibidem, 25.

[116]Cf. Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15 augusti 1997), 160-162: Enchiridion Vaticanum 16, Bologna 1999, pp. 845-847.

[117]Conc. Œcum. Vat. II, Decretum de accomodata renovatione vitae religiosae Perfectae caritatis, 6.

[118]Cf. S. Ambrosius, Epist. 49, 3: PL 16, 1154 B.

[119]Ioannes Paulus II, Adhort. Ap. Post-syn. Vita Consecrata (25 martii 1996), 94: AAS 88(1996), 469.

[120]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Decretum de Oecumenismo Unitatis Redintegratio, 21.

[121]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 22.

[122]Cf. Ioannes Paulus II, Litt. Enc. Ut unum sint (25 maii 1995): AAS 87 (1995), 921-982. Videas etiam: Pontificium Consilium ad Unitatem Christianorum Fovendam, Directorium oecumenicum noviter compositum: AAS 85 (1993), 1039-1119.

[123]Benedictus XVI, Allocutio: O mundo espera o testemunho comum dos cristãos (25 ianuarii 2007): L'Osservatore Romano edição em português (3 februarii 2007), 3.

[124]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Decretum de activitate missionali Ecclesiae Ad Gentes 22; Declaratio de Ecclesiae habitudine ad Religiones non-Christianas Nostra Aetate, 2-4.; Congregatio pro Doctrina Fidei, Declaratio de Iesu Christi Ecclesiae unicitate et universalitate salfivica Dominus Iesus (6 augustii 2000)20-22: AAS 92 (2000), 761-764.

[125]Ioannes Paulus II, Alocução aos participantes no encontro de estudo sobre As Raízes do Antijudaísmo (31 octobris 1997): L'Osservatore Romano edição em português (8 novembris 1997), 4.

[126]Congregatio pro Doctrina Fidei, Le peuple juif et ses Saintes Écritures dans la Bible chrétienne (24 maii 2001): Enchiridion Vaticanum 20, Bologna 2004, pp. 507-835.

[127]Cf. Conc. Œcum. Vat. II, Const. dogmatica de Divina Revelatione Dei Verbum, 14-16.

[128]Cf. Benedictus XVI, Mensagens para o Dia Mundial da Paz: Na verdade, a paz (8 decembris 2005): L'Osservatore Romano edição em português (17 decembris 2005), 4; A pessoa humana, coração da paz (8 decembris 2006): L'Osservatore Romano edição em português (16 decembris 2006), 6-7.

[129]Ioannes PaulusII, Adhort. Ap. Post-syn Catechesi tradendae (16 octobris 1979), 53: AAS 71(1979), 1320.

[130]Conc.Œcum. Vat. II, Const. Pastoralis de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et Spes, 4.

[131]Ibidem, 11.

[132]S. Maximus Confessor, Capitum theologicorum et oeconomicorum duae centuriae IV, 39: MG 90, 1084.

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